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O Jovem Frankenstein
O Jovem Frankenstein
O Jovem Frankenstein não é simplesmente uma comédia inventiva. É um filme que reconstrói, com reverência e inteligência, a própria base de um gênero que durante décadas assustou e encantou plateias. Desde a sua abertura em preto e branco, uma escolha estética ousada em 1974, a obra de Mel Brooks declara seu amor pelo cinema clássico de horror, especialmente pelos Frankenstein dirigidos nos anos 30 por James Whale. Essa opção visual não é um capricho nostálgico: é um gesto artístico que coloca esta comédia no coração da tradição cinematográfica que parodia, permitindo que o filme dialogue com uma estética esquecida e criando, simultaneamente, um ambiente crível onde o absurdo pode florescer com graça e coerência.
Gene Wilder, que também co-escreveu o roteiro, entrega uma performance que é ao mesmo tempo caricatural e profundamente humana. Seu Dr. Frederick Frankenstein oscila entre a pretensão de cientista moderno e a insanidade herdada de seu avô lendário, com momentos em que o riso brota justamente da tensão entre esses dois pólos. Wilder não grita simplesmente; ele constrói nuances na comédia, trabalhando a ansiedade e a expectativa como se fossem instrumentos dramáticos. Isso faz com que cenas aparentemente simples, como o momento em que ele percebe que colocou um cérebro “anormal” no monstro, ressoem como viradas dramáticas hilárias, mas também como comentários sutis sobre a própria natureza da criação e da identidade.
E o elenco de apoio também merece destaque. Marty Feldman como Igor oferece uma das performances mais marcantes de humor físico dos anos 70, jogando com a expectativa do público sobre o estereótipo do assistente deformado e transformando cada comando de cena em surpresa e riso. Teri Garr e Cloris Leachman seguram a linha entre o charme e o absurdo, lembrando que, para Brooks, cada personagem é uma peça fundamental de um mecanismo maior de comédia e crítica. A referência ao cinema de horror antigo surge em detalhes de cenografia, fotografia e ritmo, mas nunca a custo da personalidade própria do filme.
O filme também demonstra um senso impressionante de economia narrativa. Enquanto paródias comuns se apoiam em gags isoladas, O Jovem Frankenstein constrói sequências que se conectam e evoluem, como a icônica cena da dança e canto “Puttin’ On The Ritz”, onde o monstro de Peter Boyle, inesperadamente, mostra sua faceta mais civilizada, e que permanecem vivas na memória porque vão além do riso imediato. São compostas com o cuidado de um diretor que entende ritmo, espaço e tempo cômico.
É verdade que nem todas as piadas sobrevivem ao tempo com igual vigor; algumas podem parecer datadas ou dependentes de referências que escapam às gerações nascidas muito depois da era dos filmes em preto e branco. E ainda que o humor de Brooks flerte frequentemente com o pastelão, ele sempre o faz com plena consciência de sua função dentro de uma estrutura mais ampla: provocar e divertir, sim, mas também celebrar e, às vezes, satirizar a própria história do cinema.
Em sua essência, O Jovem Frankenstein permanece tão atual quanto parece atemporal porque equilibra comédia e homenagem de forma rara. Não é apenas um filme para rir, é um filme para sentir o pulso do cinema clássico bater no ritmo de uma comédia moderna, e é essa capacidade de se encantar com o passado enquanto se diverte com o presente que faz dele uma obra indispensável para quem ama o cinema. Não importa se sua preferência é pelo riso, pelo horror ou pela alquimia que nasce quando esses dois elementos se encontram.
O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein, 1974 / Estados Unidos)
Direção: Mel Brooks
Roteiro: Mel Brooks, Gene Wilder
Com: Gene Wilder, Marty Feldman, Teri Garr, Peter Boyle, Cloris Leachman, Madeline Kahn
Duração: 106 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
O Jovem Frankenstein
2026-02-11T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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