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O Massacre da Serra Elétrica

O Massacre da Serra Elétrica - filme

Assistir a O Massacre da Serra Elétrica é sentir o horror como algo que atravessa a pele sem mostrar sangue jorrando em abundância. O filme de Tobe Hooper, lançado em 1974, não apela para efeitos grotescos ou trilhas invasivas; ao invés disso, ele costura tensão por meio de ambientes, ruídos e um senso de isolamento sufocante que gruda na pele. Essa escolha estética não é casual: ela molda a maneira como percebemos o perigo e, ainda hoje, torna a experiência visceral, mesmo para olhos acostumados aos sustos modernos.

O Massacre da Serra Elétrica - filme
Hooper
trabalhava com um orçamento extremamente limitado e elenco pouco experiente, mas isso não se traduz em ingenuidade. Muito pelo contrário, a escassez de recursos parece ter forçado soluções criativas que marcam o estilo do filme. A câmera, muitas vezes tremida ou em planos inesperados, não busca glamourizar a violência, mas nos colocar dentro dela. Os sons e efeitos de áudio criam uma trilha que se infiltra sem pedir licença. Som não é fundo musical aqui, é força narrativa que cria pânico sem mostrar tudo.

E por falar em casa, o cenário onde grande parte do filme acontece é um personagem por si só. Essa construção meio museu macabro, meio fetiche de ossos e restos, afirma uma estética que liga o horror à desumanização do mundo real. Quando vemos Leatherface e sua família, não é apenas uma figura gore: é um símbolo de uma violência que ecoa a brutalidade da indústria, da cadeia alimentar, dessa espiral de troca entre carne e morte. A cena do jantar é talvez a mais emblemática: sem sangue explícito, com olhares e ruídos, ela resume o terror de estarmos sentados, impotentes, diante de algo que não obedece a nenhuma lógica humana.

O Massacre da Serra Elétrica - filme
As atuações são cruas, afastando-se do histrionismo que vimos em tantos slashers posteriores. Isso não é uma fraqueza, mas uma escolha estética. As personagens soam, muitas vezes, deslocadas e reais, como se fossem pessoas comuns tragadas por um pesadelo. A participação de Marilyn Burns como Sally é um estudo de resistência emocional. Ela não é uma garota convencional com atitude de super-heroína. Ela é medo, desorientação e luta, e sua fuga no último ato, tanto física quanto psicológica, ressoa mais profundamente do que qualquer sequência de mortes estilizadas.

Claro, há pontos que podem parecer datados ou desbalanceados para quem busca narrativa tradicional. A construção dos personagens é mínima, e o roteiro é simples, quase um flerte com o caos em vez de uma construção lógica. Em alguns momentos, a sensação de que algo precisa acontecer pesa tanto quanto os próprios momentos de horror. Mesmo assim, o filme não perde força porque não pretende ensinar algo claro. Sua força está no desconforto, na sensação de que o mundo pode ser um lugar irracional e cruel em sua rotina mais banal: uma estrada vazia, um posto sem gasolina, uma casa isolada.

Esse filme não é apenas clássico por inspiração ou por ter sido pioneiro do subgênero slasher. Ele é clássico porque nos força a encarar uma violência que nunca se mostra bonita ou controlada. Em vez de nos dar um sangue gráfico, ele nos dá os gemidos apagados e a sombra de um monstro ainda sem nome que nos persegue para além da tela. E mesmo que hoje possamos achar a câmera rústica ou certos momentos narrativamente soltos, dificilmente esqueceremos a dança final de Leatherface com a motosserra contra a luz do amanhecer. Uma imagem que resume, de forma brutal e poética, a sensação de que o horror pode ser tão absurdo quanto real.


O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974 / Estados Unidos)
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Kim Henkel, Tobe Hooper
Com: Marilyn Burns, Allen Danziger, Paul A. Partain, Edwin Neal, Gunnar Hansen
Duração: 83 min.

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