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Setembro 5
Setembro 5
Setembro 5 não é um filme que se entrega facilmente ao espectador. A primeira coisa que chama atenção é como Tim Fehlbaum, diretor e co-autor do roteiro, recusa o brilho ou a grandiosidade típica de filmes históricos sobre tragédias. Em vez de ampliar a perspectiva para o drama humano universal ou para a profundidade política do evento, o filme escolhe se enfiar dentro de uma sala de controle de televisão em Munique em 1972, transformando um massacre em um estudo sobre ética e profissionalismo sob pressão. O resultado pode parecer frio à primeira vista, e de fato muitos espectadores, especialmente os que buscam uma narrativa emocional ampla ou um contexto histórico detalhado, sentirão uma espécie de vazio na "alma" do filme. Essa escolha, no entanto, é também sua força e sua limitação mais notável.
A narrativa se desenrola quase inteira em ambientes fechados, entre consoles, monitores e fitas de 16 mm que mais parecem personagens secundários. Essa estética técnica, evocada pela cinematografia que imita o grão e a textura das transmissões da época, cria uma atmosfera imersiva e claustrofóbica, como se estivéssemos ao lado dos operadores de câmera e editores tentando manter o fio da narrativa ao vivo. Esse foco no como e não no porquê transforma o filme em uma espécie de procedural jornalístico, mais interessado em procedimentos, decisões e táticas do que em vozes individuais ou tragédias pessoais.
É aí que entra o trio central de atuações. John Magaro, no papel de Geoffrey Mason, traz algo sutíl e introspectivo a um personagem que poderia ter sido apenas mais um executivo estressado. Sua expressão muitas vezes contida traduz o peso de decisões que, para ele, parecem ser sobre televisão mas carregam um impacto humano invisível. Peter Sarsgaard, como Roone Arledge, oferece uma presença mais firme e experiente, ainda que sem grandes explosões dramáticas. Leonie Benesch, como Marianne, equilibra tensão e humanidade, trazendo ao filme um tipo de ponte emocional entre o espectador e os acontecimentos friamente transmitidos.
O que Setembro 5 realmente tenta capturar é essa zona cinzenta ética da cobertura ao vivo: a pressão de informar sem saber os desfechos, a urgência de preencher o vazio com palavras que talvez não signifiquem nada, o terror silencioso de ser responsável pelo que o mundo todo está assistindo. É um filme sobre escolhas editoriais com vida real pendurada no fio de uma transmissão. Essa tensão, quando funciona, gera uma aprendizagem visceral sobre a natureza da mídia em tempos de crise. Quando não funciona, deixa um sentimento de que faltou profundidade, de que há pouca exploração do contexto político ou impacto histórico que ultrapasse o próprio microcosmo do noticiário.
O principal contraponto dessa abordagem está na comparação inevitável com filmes mais expansivos sobre o mesmo evento, como Munique, de Spielberg. Enquanto Spielberg mergulha nas ramificações humanas e políticas do ataque de 1972, Setembro 5 se limita quase que exclusivamente às alternativas em uma sala de controle. Essa escolha narrativa pode parecer arriscada e, por vezes, redundante, porque há momentos em que o espectador deseja uma visão mais ampla que o filme deliberadamente se recusa a dar.
Pontos positivos aparecem, sobretudo, no entendimento técnico e na recriação do período. Desde os figurinos meticulosamente cuidados até o nervosismo palpável transmitido pelas câmeras em constante movimento. A construção da tensão é eficaz em vários momentos, especialmente quando o filme recua, ainda que por instantes, para nos mostrar o alcance global daquela cobertura inédita. Ao mesmo tempo, o ritmo acelerado e a decisão de não contextualizar mais profundamente a complexidade geopolítica acabam por limitar uma conexão emocional mais ampla do longa.
Em síntese, Setembro 5 é um estudo sob pressão. Não é grandioso, nem é um épico. É um filme que escolhe olhar para dentro de uma sala cheia de homens e mulheres tentando transmitir a verdade. Nessa escolha, ele descobre algo essencial sobre a tensão entre informação, espetáculo e responsabilidade moral. Para quem se fascina por procedimentos jornalísticos e por histórias sobre decisões sob fogo cruzado, há muita coisa interessante a ser absorvida aqui. Para quem busca um drama humano profundo ou um comentário histórico ampliado, pode restar a frustração de não ter encontrado isso nas poltronas.
Setembro 5 (September 5, 2024 / EUA, Alemanha)
Direção: Tim Fehlbaum
Roteiro: Moritz Binder, Tim Fehlbaum, Alex David
Com: John Magaro, Peter Sarsgaard, Leonie Benesch, Ben Chaplin
Duração: 94 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Setembro 5
2026-02-04T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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