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Anatomia do Caos
Anatomia do Caos
A pandemia de Covid-19 foi um dos períodos mais nefastos da história recente. Está próxima o suficiente para ainda despertar lembranças traumáticas, mas distante o bastante para que parte da sociedade comece a esquecer ou mesmo a repetir muitos dos erros cometidos naquele momento. No Brasil, a crise sanitária foi agravada por uma intensa polarização política. De um lado, estavam os apoiadores do então presidente, que rejeitavam o isolamento social, o uso de máscaras e do álcool em gel, não acreditavam nas vacinas e defendiam o chamado tratamento precoce com cloroquina. Do outro, aqueles que seguiam as recomendações científicas, aguardavam ansiosamente pela vacinação e rejeitando medicamentos sem eficácia comprovada.
Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, revisita esse período, concentrando-se especialmente na CPI da Covid, que investigou a condução do governo federal durante a pandemia e a demora na aquisição de vacinas para o país. Entre momentos de tensão e frases que marcaram aquele tempo como "é apenas uma gripezinha", "se você virar jacaré" e "chega de mimimi", o documentário intercala imagens amplamente divulgadas pela imprensa, registros das sessões da CPI, cenas de bastidores e planos do vazio das salas e ruas de Brasília, compondo um retrato simbólico de um país à deriva.
Há uma sensação ambígua ao assistir ao documentário, especialmente em um momento em que o país volta a viver um clima de disputa eleitoral. Surge inevitavelmente a pergunta sobre o público a quem o filme se destina. Em certa medida, parece uma tentativa de apresentar, de forma organizada, os acontecimentos para aqueles que apoiaram o governo e minimizaram a gravidade da pandemia. No entanto, é pouco provável que esse público procure o filme espontaneamente. Para quem viveu aqueles acontecimentos sob outra perspectiva, tampouco há grandes revelações. Os fatos já eram conhecidos, assim como as consequências das decisões políticas tomadas naquele período.
Mas talvez a força de Anatomia do Caos não esteja em convencer quem pensa diferente nem em revelar informações inéditas. Seu valor reside justamente naquilo que o documentário faz de melhor: preservar a memória. Em uma época marcada pelo excesso de informações, pela circulação de versões conflitantes dos fatos e pela rapidez com que acontecimentos traumáticos são substituídos por novos ciclos de notícias, organizar uma narrativa coerente torna-se um gesto político e histórico. O documentário transforma acontecimentos dispersos em memória compartilhada, permitindo que futuras gerações compreendam não apenas o que ocorreu, mas também como ocorreu.
Essa função de arquivo é ainda mais importante quando o objeto registrado é alvo constante de disputas narrativas. A memória coletiva não se constrói apenas pelos acontecimentos em si, mas pelas formas como eles permanecem sendo contados. Ao reunir imagens, depoimentos e registros oficiais em uma estrutura cronológica, o filme resiste ao apagamento e ao revisionismo que frequentemente acompanham episódios traumáticos da história. Nesse sentido, seu papel ultrapassa o da denúncia imediata e assume uma dimensão de patrimônio histórico.
O filme de Dandara Ferreira tem o mérito de resgatar, compilar e organizar, de maneira didática e cronológica, um dos períodos mais caóticos vividos pelo Brasil entre 2020 e 2021. As mortes, o medo, a expectativa por uma vacina que parecia nunca chegar e o descrédito lançado sobre a ciência reaparecem em sequência, revelando o quanto a realidade daquele momento, por vezes, parecia saída de uma obra de ficção distópica. Ideias como a defesa da imunidade natural em detrimento da vacinação ou a crença em medicamentos sem eficácia comprovada hoje soam absurdas, mas fizeram parte do debate público e influenciaram decisões que tiveram consequências concretas.
Mais do que revisitar um passado recente, Anatomia do Caos lembra que a memória é uma ferramenta de responsabilidade coletiva. O filme talvez não converta quem se recusa a rever suas convicções, nem ofereça grandes novidades para quem acompanhou atentamente aqueles acontecimentos. Ainda assim, cumpre uma função essencial: impedir que o esquecimento banalize uma tragédia que custou mais de setecentas mil vidas. Em tempos em que a desinformação continua a desafiar o debate público, recordar também é uma forma de proteger o futuro.
Anatomia do Caos (2026, Brasil)
Direção: Dandara Ferreira
Roteiro: Dandara Ferreira e Élcio Verçosa Filho
Duração: 90 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Anatomia do Caos
2026-07-07T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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