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It: Capítulo Dois
It: Capítulo Dois
Falar sobre It: Capítulo Dois (2019) é, inevitavelmente, falar sobre expectativa. O primeiro filme não foi apenas um sucesso de bilheteria, mas um fenômeno cultural que resgatou o terror com uma rara combinação de nostalgia, construção de personagens e tensão genuína. A continuação chega com a responsabilidade de encerrar essa história e, ao mesmo tempo, expandi-la. O resultado é um filme que oscila entre momentos de grande sensibilidade emocional e decisões que enfraquecem justamente aquilo que deveria ser seu motor principal: o medo.
A trama retoma o Clube dos Perdedores (ou Otários, dependendo da tradução) 27 anos depois dos eventos em Derry. Cada um seguiu sua vida, aparentemente deixando para trás os horrores da infância, até que o retorno de Pennywise os obriga a revisitar um passado que nunca foi realmente resolvido. Existe algo quase melancólico nessa premissa, como se o filme entendesse que crescer não significa superar, mas apenas aprender a conviver com as próprias cicatrizes. E é nesse território que a narrativa encontra sua força mais honesta.
O problema é que It: Capítulo Dois parece constantemente dividido entre dois filmes. De um lado, há um drama sobre memória, trauma e identidade, que se revela nos encontros entre os personagens e na forma como eles lidam com aquilo que foram. De outro, há uma tentativa insistente de amplificar o terror através de espetáculo, com sequências cada vez mais grandiosas e dependentes de efeitos digitais. Essa segunda camada, curiosamente, é a que mais compromete a experiência.
O terror aqui raramente nasce da sugestão. Ele é mostrado, explicado, ampliado até perder impacto. Há uma sensação de que tudo precisa ser maior do que antes, mais barulhento, mais grotesco, mais visualmente agressivo. Só que o medo, quando excessivamente exposto, deixa de ser íntimo e passa a ser distante. Em vários momentos, o que deveria causar tensão acaba soando como um desfile de criaturas digitais que impressionam menos do que deveriam.
Ainda assim, quando o filme desacelera e permite que seus personagens respirem, algo interessante acontece. A história ganha densidade. Não é mais sobre enfrentar um palhaço assassino, mas sobre confrontar versões antigas de si mesmo. Pennywise, nesse contexto, funciona menos como um vilão tradicional e mais como a materialização do trauma, uma presença que existe porque nunca foi totalmente encarada.
O confronto final traduz bem essa ideia. A criatura sempre se alimentou do medo, e quando os personagens finalmente deixam de se submeter a isso, ela perde força. Há uma potência simbólica nessa resolução, quase como uma afirmação de que o verdadeiro enfrentamento não está na violência, mas na percepção. O mal se torna pequeno quando deixa de ser alimentado. É uma conclusão coerente com os temas do filme, embora a execução carregue uma certa pressa, como se uma jornada emocional complexa fosse resolvida de maneira simplificada demais.
Andy Muschietti demonstra controle visual em vários momentos, especialmente na construção de Derry como um espaço carregado de memória e inquietação. Mas o ritmo é irregular. O filme se alonga em excesso, revisitando situações que nem sempre acrescentam novas camadas, o que dilui a tensão ao longo das quase três horas de duração. Existe uma insistência em retornar ao passado através de flashbacks que, embora bem realizados, acabam se tornando redundantes.
Se há algo que sustenta o filme mesmo quando ele se perde, é o elenco. Bill Hader se destaca com uma performance que equilibra humor e vulnerabilidade de forma surpreendente. Seu personagem carrega uma dor silenciosa que nunca é totalmente verbalizada, e isso cria alguns dos momentos mais genuínos do filme. James McAvoy entrega um protagonista correto, mas sem o mesmo peso dramático que outros personagens alcançam. Jessica Chastain tem presença, embora seu arco pareça limitado dentro do conjunto. Já Bill Skarsgård continua inquietante como Pennywise, mas a exposição constante do personagem reduz parte de seu impacto.
Existe uma cena, em particular, que resume o potencial do filme. A visita à velha senhora começa de forma quase banal, com um desconforto sutil que vai crescendo aos poucos. O ambiente parece errado antes mesmo de algo explicitamente assustador acontecer. Quando a cena finalmente explode em horror, ela funciona porque foi construída com paciência. É um raro momento em que o filme encontra equilíbrio entre o psicológico e o visual, mostrando o que poderia ter sido se essa abordagem fosse mais consistente.
No fim das contas, It: Capítulo Dois não falha por falta de ambição, mas talvez por não saber exatamente onde concentrá-la. É um filme que quer ser mais épico, mais emocional e mais assustador ao mesmo tempo, e acaba se diluindo nesse excesso. Ainda assim, há valor no que ele propõe. Como encerramento, oferece uma sensação de ciclo completo, mesmo que imperfeito. Como terror, é irregular. Mas como reflexão sobre memória e trauma, encontra momentos que permanecem.
Vale a pena assistir, especialmente para quem se envolveu com o primeiro filme e quer acompanhar o destino desses personagens. Só é preciso aceitar que o medo aqui é menos imediato e mais simbólico. E que, às vezes, o verdadeiro horror não está naquilo que aparece na tela, mas no que insiste em não desaparecer dentro de quem assiste.
It: Capítulo Dois (It Chapter Two, 2019 / Estados Unidos, Canadá)
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Gary Dauberman
Com: James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader, Bill Skarsgård, James Ransone, Isaiah Mustafa, Jay Ryan
Duração: 169 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
It: Capítulo Dois
2026-07-08T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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