Primeiro longa-metragem de ficção de Déo Cardoso, Cabeça de Nêgo traz uma narrativa potente sobre a questão educacional no Brasil. Daqueles filmes que começam de maneira quase despretensiosa, mas vão ganhando corpo e nos surpreendendo ao final.
Cabeça de Nêgo
Primeiro longa-metragem de ficção de Déo Cardoso, Cabeça de Nêgo traz uma narrativa potente sobre a questão educacional no Brasil. Daqueles filmes que começam de maneira quase despretensiosa, mas vão ganhando corpo e nos surpreendendo ao final.
Saulo Chuvisco é um estudante secundarista de um colégio público. Politizado, envolvido com o movimento estudantil, tem denunciado os problemas da instituição de ensino em suas redes sociais. Um dia, um colega o chama de macaco na sala de aula e começa uma revolução.
A agressão verbal e racismo explícito não parecem ser o problema para professor nem direção do colégio. Tudo que os preocupa é a reação “violenta” de Saulo. Ao se recusar a sair da sala, o jovem inicia uma onda que cresce em imagem e sons capazes de serem sentidas na ponte da sala de aula para a rua, onde os jovens se aglomeram em protesto.
É impressionante como Déo Cardoso vai construindo essa passagem de maneira fluida e envolvente. Partindo do particular para o coletivo. Não está em voga ali apenas um jovem que sofreu preconceito, mas um racismo estrutural. Assim como o descaso com o ensino público como um todo. O diretor ainda alfineta governo e imprensa, ao construir o viés interligado da chegada do secretário e um canal de televisão com uma cobertura bastante tendenciosa.
A linguagem do filme, realista e bastante simples, traz momentos ilustrativos envolventes como quando Saulo lê um livro sobre os Panteras Negras e no quadro através dele vão surgindo palavras e nomes importantes na luta racial.
Toda a parte da manifestação dos alunos na porta do colégio, em especial os minutos finais, também são orquestrados com uma força impressionante, nos gritos de guerra e construção da mise-en-scène do entorno.
Cabeça de Nêgo não traz nada novo, mas traz força e honestidade em suas imagens que nos comovem. Sim, a situação da educação no país é caótica e urgente. Sim, existe racismo no Brasil. E sim, ainda podemos ter fé em nossos jovens, mesmo com a realidade batendo em nossa porta. Isso, de alguma forma, nos dá esperança.
Filme Visto no 9º Olhar de Cinema de Curitiba.
Cabeça de Nêgo (Brasil, 2020)
Direção: Déo Cardoso
Roteiro: Déo Cardoso
Com: Lucas Limeira, Nicoly Mota, Jennifer Joingley, Mayara Braga, Wally Menezes, Mateus Honori
Duração: 85 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Cabeça de Nêgo
2020-10-14T14:12:00-03:00
Amanda Aouad
cinema brasileiro|critica|Déo Cardoso|filme brasileiro|OlhardeCinema2020|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Poucos filmes conseguiram me incomodar tanto — e isso, acredite, é um elogio — quanto Instinto Materno (Pozitia Copilului, 2013), dirigido...
-
Se Enlouquecer, Não se Apaixone (2010), dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden , chegou aos cinemas prometendo tratar de saúde mental com l...
-
Poucos filmes conseguem, com tanta elegância e tensão contida, transformar um episódio amplamente conhecido da história recente em uma obra...
-
Assistir A Escolhida (2020) é como caminhar sobre uma ponte tensa que separa passado e presente, dor e espetáculo, intenção e execução ambí...




