"Queremos ir para Disney" esse grito ecoa no pequeno apartamento onde dois irmãos passam os seus dias, enquanto sua mãe trabalha. Recém chegados do México para os Estados Unidos, eles precisam lidar com essa estranha realidade onde códigos de conduta em um velho gravador dão o tom e a fuga perfeita é a imaginação.
Los Lobos
"Queremos ir para Disney" esse grito ecoa no pequeno apartamento onde dois irmãos passam os seus dias, enquanto sua mãe trabalha. Recém chegados do México para os Estados Unidos, eles precisam lidar com essa estranha realidade onde códigos de conduta em um velho gravador dão o tom e a fuga perfeita é a imaginação.
Baseado nas memórias do próprio diretor Samuel Kishi, Los Lobos não pretende fazer um apanhado da situação dos imigrantes, nem mesmo eleger heróis e vilões. Há uma proposta singela de imergir com eles naquele mundo claustrofóbico do pequeno apartamento, quente e sujo. Visto nos dias de hoje, não tem como não pensar na pandemia e isolamento social que estamos vivendo.
Da janela, um grupo de garotos se torna ameaçador. Mas ao mesmo tempo é uma realidade desejada por aqueles que ficam ali, enclausurados. A simpática vizinha e locatária do espaço é o único contato humano além da mãe. E mesmo assim, há uma sensação de clandestinidade, já que as regras da genitora são claras quanto à conduta de isolamento.
A fantasia é a única possibilidade de fuga. Os garotos brincam então com seus próprios desenhos imaginando uma outra história que o diretor mescla em tela em desenho animado, mas com a estética simples do traço infantil. Metáforas ajudam nessa construção imagética que deixam o tom um pouco mais leve.
Com boa parte da narrativa dentro do pequeno apartamento em um ritmo que parece alongar o tempo, a trama traz um olhar observativo daquela realidade inóspita. Assim como nos aproxima ainda mais daquelas crianças. Destaque aqui para atuação de ambos, conseguindo passar toda a verdade daquelas situações de maneira tão sensível.
A busca pelo parque temático criado por Walt Disney é também acertada. É o símbolo maior da fantasia e realização do sonho infantil, construída em imagens e promessas de seus contos de fadas e desenhos que vendem tão bem o american way of life. Algo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante dos dois meninos.
Ainda que realista, Los Lobos acaba também sendo uma fábula. Sensível e envolvente, não por acaso está na mostra competitiva do Olhar desse ano.
Visto no 9º Olhar de Cinema de Curitiba
Direção: Samuel Kishi
Roteiro: Samuel Kishi Leopo, Sofía Gómez Córdoba, Luis Briones
Com: Martha Reyes Arias, Maximiliano Nájar Márquez, Leonardo Nájar Márquez
Duração: 95 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Los Lobos
2020-10-14T18:00:00-03:00
Amanda Aouad
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