Dizem que sonhar não custa nada, mas há sonhos que parecem ser quase uma afronta. Imagine um filho de uma família humilde do interior de Minas Gerais, cujo pai é zelador de um prédio e a mãe faxineira, querer ser um astrofísico e integrar a equipe do projeto Marte Um. Esse é Deivinho, protagonista do novo filme da Filmes de Plástico, produtora mineira de filmes como Temporada e No Coração do Mundo, destaques em diversos festivais pelo país.
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Marte Um
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Dizem que sonhar não custa nada, mas há sonhos que parecem ser quase uma afronta. Imagine um filho de uma família humilde do interior de Minas Gerais, cujo pai é zelador de um prédio e a mãe faxineira, querer ser um astrofísico e integrar a equipe do projeto Marte Um. Esse é Deivinho, protagonista do novo filme da Filmes de Plástico, produtora mineira de filmes como Temporada e No Coração do Mundo, destaques em diversos festivais pelo país.
Primeiro filme solo de Gabriel Martins, o formato da obra mantém o mesmo espírito das produções anteriores, focada no cotidiano, fugindo do lugar comum e buscando uma verdade em tela que nos envolve e impacta com tamanha sensibilidade que nos deixa pensando muito tempo após a projeção. O sonho de Deivinho é um detalhe que impulsiona a história, mas está longe de ser o único conflito estabelecido a ser acompanhado.
Em um país de ressaca após as eleições de 2018, cada membro daquela família tem seu mundo particular a ser desvendado e reconstruído. Wellington, o pai, é o estereótipo do brasileiro conformado, que aceita sua sina de estar sempre em função de outros, fazendo mais tarefas do que lhe cabem, como cuidar do gato ou das plantas da síndica do prédio, sem questionar, sonhando com seu time campeão e com que seu filho seja um jogador de futebol famoso que possa tirá-los daquela situação precária.
Já a irmã mais velha, Eunice, está em busca de uma nova vida, terminando a faculdade, querendo sair de casa e dividir apartamento com a namorada. A relação dela com Deivinho é algo singelo, com uma cumplicidade através de mundos que parecem distintos, mas se entendem na busca por não repetir o estabelecido. Os diálogos entre os dois traz uma sensação boa de que é possível existir ternura mesmo em meio a situações tensas e complexas.
Técia, a mãe, acaba sendo um contra-ponto curioso do seu esposo. Ainda que também tenha uma visão mais humilde da vida, agradecendo por cada nova faxina e se divertindo com as extravagâncias dos patrões. Sua rotina acaba sendo atravessada pela televisão e pelo efeito narcótico desse meio de comunicação, tão criticado por programas ditos populares que exploram a miséria humana.
Essa curva dramática que perpassa o roteiro com diversos pontos instigantes traz uma reflexão profunda sobre a própria sociedade brasileira, enriquecendo ainda mais o dilema de Deivinho. Esse garoto que como muitos tem depositado sobre si a responsabilidade do futuro de uma família. Afinal, brasileiro é louco por futebol. Que garoto não sonharia em ser jogador profissional? A ousadia de não fazer parte da estatística faz Deivinho, esse garoto comum que se torna quase um herói, em uma jornada solitária pelos canais do youtube, imaginando uma realidade tão distante da sua.
É incrível como Gabriel Martins consegue tratar de tudo isso com poucos recursos, com uma direção segura que busca a naturalidade das situações em um ritmo muito próximo do cotidiano. A interpretação dos atores também é bastante realista e trabalha muito com os gestuais e expressões que trazem camadas para os diálogos ou, muitas vezes, falam por si só, como um entrelaçar de mãos e olhares assombrados.
Marte Um é um filme sensível que vai além do estereótipo, ainda que parta deles para construir sua história. Uma obra que nos envolve e nos surpreende a cada momento, deixando diversas reflexões após a sessão. Pode nem ser selecionado para o Oscar, mas é uma alegria ver que será ele a nos representar nessa corrida mercadológica.
Marte Um (Brasil, 2022)
Direção: Gabriel Martins
Roteiro: Gabriel Martins
Com: Cícero Lucas, Carlos Francisco, Camila Damião, Ana Hilário, Rejane Faria
Duração: 115 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Marte Um
2022-09-17T15:03:00-03:00
Amanda Aouad
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