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Em determinada cena no início da obra, Maria Callas está em pé na cozinha, cantando enquanto sua governanta faz um omelete para o café da manhã. Ao terminar a ária, a cantora a olha com uma expressão de súplica, totalmente vulnerável, aguardando o veredito da outra mulher sobre sua performance.
Esse momento resume a principal proposta do novo filme de Pablo Larraín, uma mulher que já foi considerada a prima-dona da Ópera mundial, fragilizada, insegura, não sendo levada a sério nem por aqueles que lhe restaram, seus dois empregados domésticos. O filme constrói um recorte da vida de Maria Callas a partir do que seria sua última semana de vida, pincelando através de seus delírios, momentos importantes da sua trajetória enquanto busca tentar voltar a cantar.
Resume também a entrega de Angelina Jolie ao papel. O olhar da atriz na referida cena diz tudo, assim como a maneira como ela intercala essa mulher austera de outrora com a fragilidade dos momentos finais. A dor do que foi e do que poderia ter sido. A angústia de não mais ser. “Eu venho ao café quando quero ser adorada”, diz ela em determinado momento. Há uma busca também por si mesma, um olhar para dentro resumido na fala “eu comecei a cantar por minha mãe, parei de cantar por Onassis, agora quero fazer por mim”.
Viciada em mandrax, remédio que fez muito sucesso nas décadas de setenta e oitenta, Maria Callas passa seus últimos dias vagando por Paris, rememorando sua vida, ensaiando secretamente para tentar voltar a cantar ou depressiva em casa brigando com seu mordomo que insiste que ela ouça um médico. Suas alucinações ajudam Pablo Larraín a brincar com a linguagem cinematográfica, construindo cenas operísticas pela cidade ou simplesmente apresentando um personagem imaginário chamado “Mandrax”, interpretado por Kodi Smit-McPhee.
Até por esse jogo entre o real, o imaginário e a ópera, um detalhe que acaba por fragilizar o roteiro é a ausência de legendas nas canções. A ópera não é só uma música, é uma fala de uma peça, traz uma narrativa, uma mensagem e a escolha de cada ária em determinado momento ajudam a contar a história de Callas. Sem essa tradução, o roteiro constrói algumas lacunas de entendimento, impossibilitando inclusive uma comoção maior em determinados momentos.
De qualquer maneira, o roteiro de Steven Knight carece de um foco maior nesse aprofundamento da personagem por trás da persona. Nos outros dois filmes de Larraín sobre mulheres icônicas, Spencer e Jackie, há um desnudamento maior e uma busca pela aproximação. Aqui, ainda que vejamos a fragilidade de uma mulher em seu crepúsculo, a sensação é de que ficamos ainda na superfície do mito. Não por culpa de Jolie, que, como já foi dito, se entrega de corpo e alma à personagem. É mais pela proposta da obra em si.
Há também um desconhecimento maior do público em geral em relação a personagem retratada. Enquanto a ex-primeira dama dos Estados Unidos e a princesa de Gales tinham suas histórias repetidas em diversos ângulos na imprensa, Callas não goza da mesma popularidade. Era cantora de ópera, uma arte erudita que já foi popular, mas hoje se resume a um nicho. E faleceu na década de 70, sendo pouco revisitada pela imprensa contemporânea.
De qualquer maneira, Maria Callas é uma experiência que impacta. Especialmente se você se deixar embarcar em seus delírios, acompanhando essa ópera rocambolesca, que, como toda obra, tem uma falta de sentido lógico, um impacto emocional intenso, uma catarse através da música e um final trágico. Como prima-dona dessa investida, Angelina Jolie se sai muito bem, mas falta o suporte de uma direção e roteiro para acompanhá-la nesse mergulho profundo na alma.
Maria Callas (Estados Unidos, 2025)
Direção: Pablo Larraín
Roteiro: Steven Knight
Com: Angelina Jolie, Pierfrancesco Favino, Alba Rohwacher, Haluk Bilginer, Kodi Smit-McPhee
Duração: 124 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifacs e da Uniceusa. Atualmente, faz parte da diretoria da Abraccine como secretária geral.
Maria Callas
2025-01-15T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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