Home
Benicio del Toro
Chase Infiniti
critica
drama
Leonardo DiCaprio
livro
oscar 2026
Paul Thomas Anderson
Sean Penn
Teyana Taylor
Uma Batalha Após A Outra
Uma Batalha Após A Outra
Há filmes que chamam a atenção não pelo que contam, mas por como o fazem. Paul Thomas Anderson é um diretor faz de suas obras quase um estudo profundo da linguagem cinematográfica. O Mestre, Trama Fantasma, Sangue Negro, Magnólia, são apenas alguns exemplos disso. Por isso, é tão admirado por cinéfilos e pela academia de cinema.
Em Uma Batalha Após a Outra, isso não é diferente. A trama tinha potencial, afinal, a questão da imigração nos Estados Unidos está em voga e nunca é demais falar sobre isso. Porém, a escolha do roteiro acaba não sendo tão feliz, perdendo uma oportunidade de trabalhar melhor o tema, sem tantos estereótipos nem com uma visão pessimista e apocalíptica. Afinal, a obra original em que se inspira é da Era Reagan, a adaptação poderia trazer outras perspectivas.
De qualquer maneira, a jornada de Bob Ferguson, interpretado por Leonardo DiCaprio, nos envolve. E isso se deve, em grande parte, à força de sua interpretação. DiCaprio entrega um personagem cheio de contradições, oscilando entre a culpa, a paranoia e uma urgência quase física de agir. Há um cansaço moral em seu corpo e em seu olhar que sustenta o filme mesmo quando o roteiro vacila. Não à toa, é uma atuação que rapidamente entrou no radar das principais premiações e que merece concorrer ao Oscar: DiCaprio domina o tempo das cenas, sabe quando conter e quando explodir, e transforma silêncios em discurso.
A direção de Paul Thomas Anderson, por sua vez, é o verdadeiro motor do filme. Se o texto tropeça, a mise-en-scène avança com segurança. Anderson dita o ritmo com uma câmera inquieta, movimentos precisos e um domínio absoluto da encenação, especialmente nas sequências de ação. O cineasta transforma perseguições, deslocamentos e confrontos em momentos de puro cinema, nos quais a forma se sobrepõe ao conteúdo sem esvaziá-lo completamente. O grande destaque vai para a cena da perseguição de carro na estrada, construída em uma combinação de tensão, clareza espacial e um senso quase físico de perigo. É um momento em que o cinema de Anderson se afirma em estado bruto, lembrando por que ele é um dos grandes autores contemporâneos.
É impossível também dissociar o filme de seu contexto histórico. Embora inspirado em uma obra ambientada na Era Reagan, Uma Batalha Após a Outra dialoga diretamente com o presente, sobretudo com as políticas de imigração adotadas durante o governo Trump. O clima de medo, perseguição e desumanização dos imigrantes ecoa de forma evidente, ainda que o filme opte por uma abordagem mais alegórica e, por vezes, excessivamente sombria. Essa escolha pode afastar parte do público, mas também reforça a sensação de um país à beira do colapso moral, dividido por fronteiras físicas e simbólicas.
No fim das contas, Uma Batalha Após a Outra é um filme de qualidades inegáveis. Mesmo com um roteiro irregular e escolhas temáticas discutíveis, ele se sustenta graças a uma atuação central poderosa e a uma direção inspirada, que transforma o filme em uma experiência cinematográfica pulsante. Paul Thomas Anderson reafirma seu domínio da linguagem, DiCaprio entrega uma grande performance e o resultado é uma obra que merece ser vista, debatida e sentida. Não apenas pelo que diz, mas, sobretudo, pela forma contundente como escolhe dizer.
Uma Batalha Após a outra (One Battle After Another, 2025 / EUA)
Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Com: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Chase Infiniti, Teyana Taylor, Benicio Del Toro
Duração: 162 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Uma Batalha Após A Outra
2026-03-11T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
Benicio del Toro|Chase Infiniti|critica|drama|Leonardo DiCaprio|livro|oscar 2026|Paul Thomas Anderson|Sean Penn|Teyana Taylor|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Ratatouille não é apenas um filme de animação sobre um rato que sonha em cozinhar em Paris . Assistir a esse longa é confrontar uma ideia ...
-
Poucos filmes conseguem, com tanta elegância e tensão contida, transformar um episódio amplamente conhecido da história recente em uma obra...
-
Ver Nonnas , de Stephen Chbosky , é como cruzar a porta de um restaurante pequeno, com paredes cheias de fotos de família e o cheiro de mol...
-
Assistindo Eiffel (2021), é inevitável sentir um gesto de frustração que acompanha o espectador desde os primeiros cortes. O filme , dirigi...





