segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Besouro

A expectativa nunca é uma boa amiga. Esperei tanto por esse filme que ao assisti-lo me senti da mesma forma que Walter da Silveira ao ver Bahia de Todos os Santos, frustrada. Tal qual o antigo crítico baiano eu esperei ver uma revolução cinematográfica e me decepcionei, não era o filme que esperava. Mas também não é uma desilusão total. As belas cenas de ação estão ali, a capoeira é reverenciada e o jogo de cenas final é muito bom, fechando bem a história. Se toda a projeção fosse igual aos seus vinte minutos finais, seria um grande filme.

BesouroBesouro tem problemas de direção, tem problemas de elenco, mas principalmente, tem problemas de roteiro. Se era para fazer um filme comercial, Patrícia Andrade poderia recorrer à trajetória do herói traçada por Joseph Campbell e traduzida passo a passo por Christopher Vogler. Seria um belo filme. Suas escolhas, no entanto, são confusas e o nascimento do herói dá-se em um passe de mágica que fica pouco crível, por mais que os Orixás sejam forças poderosas. Tirando essa premissa básica, o filme começa com um didatismo insuportável. Primeiro temos uma cartela com um texto explicando a época e a situação do negro, como se não bastasse ouvirmos a voz over de Milton Gonçalves narrando-o. A maioria das pessoas não conhece a história do Brasil? É verdade, mas será que era tão necessária assim aquela informação? No início do cinema, os filmes possuíam um prólogo, tudo era muito recente e as pessoas poderiam se perder. Mas, hoje, mais de cem anos depois, o espectador está refinado, certas explicações são mais do que dispensáveis. Gostamos de ir descobrindo o filme aos poucos, principalmente com imagens. Cinema é imagem, não é texto. E o pior é ver a mesma cartela voltar para fechar o filme com uma explicação pífia. Do jeito que o texto (e a voz inconfundível de Milton Gonçalves, não esqueçam) fala, fica parecendo que a luta de Besouro era apenas para regularizar a situação da capoeira. E a situação do negro, como é que fica?

Exu e BesouroApesar de toda explicação inicial, o roteiro ainda insiste na linguagem didática. O filme começa com diálogos forçados que não tem como soar naturais em uma construção paralela óbvia que não gera o impacto necessário para o espectador se identificar com o protagonista. As situações vão sendo jogadas na tela e não convencem. A aparição dos Orixás também não foge ao didatismo com uma apresentação de cada ser e suas características que no geral estão bem desenvolvidas, com exceção de Oxum que ganha um sentimento de maternidade que não condiz com sua personalidade. Pensei que veria um treinamento mais gradativo e, do jeito que o roteiro constrói, Exu fica deslocado. Mas como é ele quem abre os caminhos, sua aparição abre uma brecha para o filme começar a engrenar. Após a cena na feira, a história melhora sensivelmente, com a ação tomando conta da tela. Para não dizer que só falei mal do roteiro, a virada final é muito boa, uma construção inteligente, visual e satisfatória. Ela não podia fazer isso desde o início?

Mas, se o roteito é fraco, a direção também não ajuda. O início do filme é claustrofóbico, com excesso de enquadramentos fechados. Aquele velho vício televisivo. O espectador urge por uma imagem aberta, por um movimento de câmera que o situe na locação, por um olhar que contemple a história e ajude a contruir o pacote de efeitos. Raros são os momentos como a câmera subjetiva do besouro pela feira. O recôncavo baiano e a Chapada Diamantina tem paisagens tão belas, ele poderia tê-las explorado melhor. Mesmo as cenas de luta, são pouco aproveitadas pelas câmeras. O chinês Hiuen Chiu Ku fez a sua parte, mas João Daniel não soube aproveitar a plástica e estética que tinha nas mãos para construir cenas memoráveis. Ainda assim, tem bons momentos como quando quebram a perna de Chico, a luta na árvore de Besouro e Quero-Quero, a já falada cena final e, principalmente, o belo balé-capoeira entre Besouro e Dinorá, disparado a melhor cena do filme.

Besouro e DinoráO elenco, quase todo novato, foi um desafio a parte. Claro que Fátima Toledo tem uma técnica boa e consegue construir exercícios incríveis. Mas, com diálogos forçados e enquadramento fechado fica complicado para os estreantes. Anderson Santos de Jesus (o Quero-quero) é o mais caricatural, tendo cenas complicadas, com entonação errada e dificuldades em expressar emoção. Em contrapartida temos Irandhir Santos, ator já experiente e grande nome do filme com seu feitor Noca de Antonia. Flavio Rocha também está bem como o coronel Venâncio e Macalé cumpre o seu papel como o mestre Alípio. Sergio Laurentino tem um papel fundamental como Exu e consegue manter-se neutro como a entidade deve ser. Ailton Carmo encara a grande responsabilidade de protagonista com momentos difíceis que não comprometem a história e outros bem interessantes. O mesmo pode-se dizer de Jéssica Barbosa e sua Dinorá.

Besouro é o filme mais caro já produzido da história do cinema brasileiro. Fala de um assunto necessário, da nossa cultura, de um herói de verdade, com uma linguagem de ação em uma tentativa de inovação no filme de gênero no país. Por isso a expectativa era grande. Vindo da publicidade (mesma escola de Fernando Meirelles) e tendo estudado tantos anos na França, esperava um apuro cinematográfico maior de João Daniel Tikhomiroff. Sua iniciativa, no entanto, é louvável. Por isso, bati palmas no final.

9 opiniões:

Marcio Melo disse...

Todo mundo que assistiu teve a mesma impressão que você.

Expectativas nem sempre ajudam.

26 de outubro de 2009 09:03
Robin disse...

Ainda estou na expectativa do filme, mas seu texto me comoveu. Muito bom, uma aula de cinema. Parabéns.

26 de outubro de 2009 10:52
Fernando disse...

O trailer me impressionou bastante, embora não há como não comparar com O Tigre e o Dragão nas cenas em que parece correr no ar. Contudo, parecia muito bem feito e é isso que me chamou a atenção. Vou diminuir um pouca a expectativa para não ficar tão frustrado.

26 de outubro de 2009 13:23
Difundir disse...

Olá,

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27 de outubro de 2009 09:59
Amanda Aouad disse...

Pois é, Márcio, uma pena.

Obrigada, Robin, mas veja o filme mesmo, sem tantas expectativa, hehe.

Com certeza, Fernando, a expectativa foi o maior problema.

Difundir, já enviei um e-mail para vocês.

28 de outubro de 2009 14:17
Marcelo Martins disse...

É, Besouro é aquele filme que poderia ter sido... Mas, também aplaudo a iniciativa (não literalmente, que não vou bater palma pra tela vazia, hehe).

31 de outubro de 2009 00:19
Amanda Aouad disse...

Pois é, Marcelo, eu só aplaudi literalmente porque estava na pré-estreia com diretor e equipe presentes.
abraços

31 de outubro de 2009 09:00
Ivan disse...

Amanda, vi teu comentário lá no site do Correio e vim aqui conferir. Fiquei surpreendido sobre como pensamos parecidos acerca do filme. Sei que você pode ter ficado com uma pulga atrás da orelha que eu tenha te plagiado, mas não foi não (se não tivesse o minimo de respeito ao leitor, não teria comentado sobre o que eles acharam da matéria). Não conhecia teu blog e meu texto foi escrito na sexta, um dia depois do filme (só que a gente publica no dia certo). Aliás, vc tem um conhecimento técnico superior ao meu. No início do filme, cheguei a me desesperar, porque, queria muito que ele fosse bom (nem lembrava mais da introdução a la Star Wars). Já tinha feito uma matéria há um mês, criando uma expectativa grande. Nosso sentimento no final da sessão tb foi igual, aplaudi meio a contragosto (ainda mais depois do 'excooula', de Jessica Barbosa). Estava na sala 12, com alguns familiares dos atores. Eu poderia pegar bem mais pesado na matéria e resolvi contemporizar (e ainda me criticaram!). O que tenho ouvido as pessoas falarem é que ele é muito pior do que eu escrevi... Só a título de curiosidade, a frase inicial do meu texto foi tirada de uma música minha escrita há dois anos.

Até mais e espero que continue lendo o Vida (já que muitos passam por cima dele).

4 de novembro de 2009 18:21
Amanda Aouad disse...

Verdade, Ivan, quando li o texto no jornal, tomei um susto com a semelhança, mas não pensei logo em cópia, até porque nunca tinha te visto por aqui, fiquei com a pulga atrás da orelha depois que meu comentário não foi aprovado no site. Mas, tranquilo, o filme passa mesmo essa sensação como já disse Márcio aí em cima. Também esperei muito pelo filme, queria muito que tivesse sido ótimo, mas é a vida. Vi as críticas ao seu texto e também a reporter da Revista Muito. Sempre vai ter fãs barristas revoltados. Mas, que venham mais Besouros por aí, um dia a gente acerta. Volte sempre e não se preocupe tenho assinatura do Correio, sempre leio o caderno.
abraços

4 de novembro de 2009 22:46

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