03/02/2010

Dúvida

Dúvida A dúvida é um sentimento angustiante e John Patrick Shanley trata do assunto de uma forma esplêndida nesse longa. Tudo é implantado de uma forma bem pensada, a começar pelo sermão em uma missa e terminando com o último diálogo entre Meryl Streep e Amy Adams. Aliás, a forma como a personagem de Streep é revelada é um show a parte. Com o sermão sendo proferido, vemos apenas uma freira de costas observando a platéia. Ela se levanta, dá um tapa em um garoto que está conversando e se dirige a outro que dorme. Só então, a câmera gira e vemos seu rosto. O suspense já conduz ao medo e obediência que aquela senhora inspira em todo o colégio desde a primeira cena.

A Irmã Aloysius Beauvier é o que podemos chamar de mão-de-ferro. Basta a sua presença para que todos se ajeitem e obedeçam cegamente. Paralelos interessantes são feitos como a refeição dos padres, conversando e rindo, em contraposição com as freiras que comem em silêncio quase mortal. Em outros momentos, ela ensina a novata Irmã James a colocar o quadro de um papa na parede, assim ela pode ver os alunos pelo reflexo enquanto escreve na lousa. "Se os alunos pensarem que você tem olhos nas costas, têm mais medo e respeito".

Meryl Streep em Dúvida Tudo piora quando a escola recebe o primeiro aluno negro e este é "adotado" pelo simpático padre Brendan Flynn. Bastam alguns pequenos acontecimentos para Irmã Aloysius acreditar que a conduta do padre não é bem intencionada e começar uma caça para desmascará-lo e tirá-lo daquela paróquia. A dúvida está instalada e o jogo psicológico é forte a ponto de, em uma única sequência de 12 minutos, Viola Davis, que interpreta a mãe do garoto, conseguir emocionar a todos chegando a uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

O clima tenso e sombrio é reforçado pela fotografia sempre lavada e escura, além da câmera instigante que parece procurar as respostas em imagens escondidas. Meryl Streep, como sempre, está fantástica. Sua imagem chega a causar medo, contrastando com a de Amy Adams, que traz uma ingenuidade a sua Irmã James. Já Philip Seymour Hoffman consegue reforçar em sua interpretação a dúvida do filme, já que por vezes achamos o padre Flynn um bom homem e por outras um cínico. Tudo isso faz de Dúvida um excelente filme que merece todo o destaque.


5 opiniões:

Kamila disse...

Esse filme dá uma verdadeira aula de roteiro e atuação. A dúvida criada pela Irmã Aloysius é MUITO bem construída pelo John Patrick Shanley e o resultado é um filme tenso que mexe mesmo com nossas emoções. Uma das boas obras que vimos no ano passado.

3 de fevereiro de 2010 18:42
Cristiano Contreiras disse...

Eu acho este filme o misto da tensão psicológica! Sem falar, como mesmo reforçou no seu texto, o embate interpretativo! Meryl Streep merecia o Oscar de atriz e não Kate Winslet pelo O Leitor - eu sei, ninguém concorda comigo. Só esclarecendo: A Kate tem um papel de coadjuvante no O Leitor e não de atriz principal.

Dúvida é um tapa na face de muita gente!

Um forte filme, marcante.

Comentei dele no Apimentário e levantei boas discussões.

Anda sumida, hein? rs
beijo

4 de fevereiro de 2010 02:18
Fernando disse...

O filme é ótimo mesmo! Coloco-o como um dos melhores da temporada passada! meryl Streep dá um show de interpretação e sua imagem de fato impõe respeito e autoridade. Filme a la Dom Casmurro, em que a gente nunca vai saber se o padre realmente era pedófilo ou não... fica a DÚVIDA! ;)

4 de fevereiro de 2010 11:11
Amanda Aouad disse...

Verdade, Fernando, bem Dom Casmurro e a dúvida de Capitu, mas eu tendo a concordar com a madre, hehehe, até pela interpretação de Meryl Streep. Quanto ao Oscar, Cris, é uma dúvida grande, pois Kate Winslet estava muito bem é O Leitor e a questão de coadjuvante ou não é relativo, afinal é o principal papel feminino. Talvez dividir o prêmio fosse o mais justo, hehe.
Isso mesmo Kamila, a forma como a dúvida é colocada em nossa cabeça é muito bem feita.

bjs

P.S. Tenho lido sempre o Apimentário, só não tenho comentado muito...

4 de fevereiro de 2010 11:25
Robin disse...

A dúvida é mesmo cruel. Um filme para se guardar.

4 de fevereiro de 2010 12:07

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