01/07/2010

Pra mim é Apenas o começo

Apenas o FimMatheus Souza merece o nosso aplauso. Não apenas por ser um jovem cineasta da PUC que conseguiu fazer um filme de baixo orçamento bom. Também porque trouxe ao cinema brasileiro um ponto que faltava ao retratar de forma realista a cultura pop da última década. Em Apenas o Fim, utilizando de metalinguagem e referências diversas, acompanhamos a última hora do relacionamento de Adriana e Antônio. Ela, vivida por Erika Mader, está decidida a ir embora, mas tem uma hora antes de embarcar. Ele, vivido por Gregório Duvivier, aproveita esse tempo final para discutir a relação. Em paralelo, em cenas em preto e branco, vemos os dois em um momento feliz na cama, falando daquilo que os identifica.

Lembrei muito de Antes do Amanhecer e a naturalidade daqueles diálogos e situações vividos por Ethan Hawke e Julie Delpy. E do clima proposto por Quase Famosos. São referências da busca de retratar uma situação realista, representando a própria geração, seus conflitos, suas dúvidas, suas vontades. A cinematografia brasileira ainda não tinha nos proporcionado algo assim.

Apenas o Fim

É até difícil traduzir em palavras aquilo que representa Apenas o Fim. O título já dá uma bela discussão, pois o filme não é sobre o fim, mas sobre o que foi vivido. É gostoso acompanhar discussões bobas sobre Cavaleiros do Zodíaco ou Pokemon. E ver Adriana se irritar ao ouvir de Antônio que ele prefere Transformers a qualquer filme de Bergman. Afinal, ele quer ser cineasta. A brincadeira com estereótipos, com a figura do nerd e sua namorada bonita, as interferências dos dois amigos surreais que aparecem no meio da conversa. O jogo de montagem e o aumento da metalinguagem no final, com os atores ensaiando o filme, ou os personagens dando seus depoimentos para câmera. Tudo é harmônico e não destoa.

Apenas o FimO melhor é que, como já falei, a história é a representação de uma geração muito próxima. Onde todos se identificam com aquelas discussões, situações e referências. Não estamos ouvindo algo que só lemos nos livros, mas vivenciamos no dia a dia. Pessoalmente, ainda me identifiquei muito com Antônio na problemática da profissão. Aquela pessoa que era a criativa na escola, escrevia todos os roteiros dos trabalhos de grupos e extra-classe, mas cai no mundo real e vê que existem milhares de outros roteiristas tão ou melhores que si mesmo. Mas, o que fazer? Ele só sabe fazer aquilo.

Todo o roteiro é baseado nos diálogos. E que diálogos. Rápidos, inteligentes, engraçados, reais. Nos identificamos como Antônio e Adriana que parecem nós mesmos ou nossos amigos próximos. Se a fotografia não é perfeita, se o som tem algum problema, pouco importa. Viajamos naquela história e em sua proposta realista. Que bom ver algo assim no cinema brasileiro. E tomara que seja apenas o começo de uma bela trajetória.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

9 opiniões:

Kamila disse...

Apesar deste filme ter uma linguagem pop demais, que pode parecer forçada, adoro "Apenas o Fim". Para mim, também é apenas o começo. Concordo que o Matheus Souza apresenta um potencial enorme! Espero que ele consiga desenvolvê-lo plenamente!

1 de julho de 2010 21:56
Amanda Aouad disse...

Ele exagera nas referências, mesmo, mas não forçada. O cara é Nerd. hehe.
bjs

1 de julho de 2010 23:15
Mateus Souza disse...

Gostei bastante do filme - que tem lá seus defeitos, mas Matheus tem esse direito - é apenas o seu primeiro filme. As referências cinematográficas que você citou são bem claras, mas ainda adiciono Woody Allene Domingos de Oliveira.

Um ótimo filme, bem escrito e bem atuado. Espero que Matheus continue assim.

3 de julho de 2010 10:43
Amanda Aouad disse...

Com certeza, Mateus. Vamos torcer para filmes cada vez melhores.

abraços

3 de julho de 2010 10:57
bruno knott disse...

Quero muito ver este filme. E como você falou, realmente dá pra percerber semelhanças com Antes do Amanhecer, o que é algo bom.

Abs!

3 de julho de 2010 13:28
bruno knott disse...

Acabei de ver... e gostei bastante. Como você falou, até então nenhum filme havia representado essa geração mergulhada no mundo pop, mas que também curte ler livros que ninguém lê e ver filmes que pouca gente vê, por exemplo.

Não tem como não lembrar de Antes do Amanhecer mesmo.

Gostei de cada segundo do filme, pena que é curto!

Vou até escrever alguma sobre ele no blog.

Bjss

5 de julho de 2010 18:37
Cristiano Contreiras disse...

Eu não tinha lido nada sobre o filme, ainda, acredita? Muito bom você me esclarecer...rs...e gostei da associação com Antes do amanhecer e Quase famosos (que sou apaixonado, por sinal, pelos dois!).

Beijo

7 de julho de 2010 01:02
Madame Lumière disse...

Olá,

Estão falando super bem do filme e, acho o Matheus um jovencito muito talentoso (e desbravador) em expor algo que é inédito na modernidade do cinema nacional.

Assistirei-o! E isso é apenas o começo!,rs!

bjs

12 de julho de 2010 18:52
Amanda Aouad disse...

Isso mesmo, Bruno, é gostoso de assistir.

É mesmo, Cris? Quando ele finalmente veio para Salvador, vi algumas matérias.

É sim, Mademe, pelo menos parecer bastante talentoso, por um filme não dá para garantir, mas já é um começo, hehe.

bjs

13 de julho de 2010 09:16

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