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Tron: Ares
Tron: Ares
Desde as primeiras imagens em neon que dançam com o pulsar de sintetizadores, Tron: Ares se apresenta como um espetáculo visual que deixa claro qual é a sua prioridade: impactar pela estética. O diretor Joachim Rønning, acostumado a filmes grandiosos de estúdio, abraça com coragem, e às vezes com descuido, essa dimensão sensorial. A paleta de cores vive em um ciclo hipnótico de luzes e contrastes, uma tentativa deliberada de traduzir o universo digital em algo que o olho humano possa sentir em vez de apenas observar.
Visualmente, a obra é indiscutivelmente rica. As sequências nas quais Ares atravessa fronteiras entre o mundo virtual e o real se tornaram momentos memoráveis, não por inovação narrativa, mas por um senso de maravilha. É nesse terreno que o filme acerta com força: cenas como Ares observando gotas de chuva ou a luz refletindo em circuitos vibram com curiosidade estética. Não se trata apenas de apenas criar uma imagem bonita, mas de fazer do visual uma linguagem que tente compor significado, ainda que isso nem sempre funcione com coesão.
A trilha sonora, assinada por Nine Inch Nails, se tornou um personagem à parte. A escolha de Trent Reznor e Atticus Ross não é apenas um detalhe sonoro; é uma articulação emocional que segura muitas sequências nas quais o roteiro vacila. Há momentos em que a música transforma cenas simples em experiências sensoriais profundas, lembrando o que Daft Punk fez em Tron: O Legado. E a nostalgia aqui não surge como um mérito automático, mas como um recurso consciente para invocar um certo sentimento de pertencimento ao universo Tron.
Aqui chegamos ao ponto mais difícil de defender: o roteiro. Em sua ambição de explorar a colisão entre inteligência artificial e humanidade, o texto tropeça com a simplicidade das motivações e a previsibilidade de seus arcos. A batalha entre corporações éticas e forças militares capitalistas que desejam transformar programas em armas poderia ter sido um terreno fértil para um debate mais profundo. Em vez disso, a narrativa muitas vezes opta por conflitos superficiais, onde a sensação de destino inevitável substitui o conflito real.
Essa fragilidade se reflete nas personagens. Ares como protagonista funciona melhor como conceito do que como personagem com profundidade emocional. A performance de Jared Leto é um estudo interessante de como representar um ser digital tentando atingir humanidade, mas em muitos momentos falta aquele deslumbramento que transforma uma IA em uma metáfora convincente para a experiência humana. É evidente que há tentativa de reconhecimento de nuances, como sua fascinação pelo mundo físico e reflexões silenciosas sobre sua própria existência, mas o texto nunca encontra um equilíbrio entre essa busca e o impulso narrativo maior, apesar de fazer referências claras a Frankenstein e Pinóquio.
Por outro lado, personagens como Eve Kim (Greta Lee) e Athena (Jodie Turner-Smith) conseguem imprimir uma energia mais concreta ao filme. Elas carregam consigo motivações que são compreensíveis e, mesmo que os diálogos em certos momentos cedam ao clichê, essas personagens ganham vida em cena. A forma como Eve representa uma visão utópica, a ideia de usar tecnologia para curar e expandir possibilidades humanas, é uma das notas mais intrigantes da obra.
Há momentos verdadeiramente marcantes. Uma cena de perseguição urbana com veículos que deixam rastros de luz é eletrizante não só pela coreografia técnica mas pela forma como o som e a imagem conversam entre si. O uso de efeitos visuais aqui não é gratuito, ele reconfigura o sentido de espaço e movimento na tela, algo raramente visto em blockbusters que dependem apenas de edição frenética.
Contudo, o que Tron: Ares entrega no final das contas é uma experiência híbrida: um filme que brilha mais como experiência sensorial do que como narrativa humanamente envolvente. Não é um erro, é um filme que se recusa a ser definido por uma única ambição. E no meio disso tudo, há algo curioso: estamos diante de uma produção que levanta questões pertinentes sobre tecnologia, criação e controle, mas escolhe expressá-las de modo que muitas vezes parecem estéticas em vez de profundas.
Não se trata de desconsiderar o valor do espetáculo. Pelo contrário, há espaço para filmes que celebram imagens e sons como fontes primárias de significado. Mas Tron: Ares esquece, com frequência, que o coração do cinema pulsa mais forte quando a forma e o conteúdo se abraçam.
Tron: Ares (Tron: Ares, 2025 / Estados Unidos)
Direção: Joachim Rønning
Roteiro: Jesse Wigutow, baseado em história de Jesse Wigutow & David Digilio
Com: Jared Leto, Greta Lee, Evan Peters, Jodie Turner-Smith, Gillian Anderson, Jeff Bridges
Duração: 119 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Tron: Ares
2026-02-24T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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