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Valor Sentimental

Valor Sentimental - filme

Valor Sentimental
é um filme sobre relações familiares, em especial a relação entre pai e filha. Curiosamente, porém, esse tema demora um pouco a se instalar em cena. A escolha de Joachim Trier é trabalhar primeiro a raiz do problema, no cerne da estrutura familiar. Em uma proposta que lembra, em parte, Aqui, de Robert Zemeckis, acompanhamos uma casa e o passar do tempo ao seu redor. Vemos uma família em suas várias fases, sempre pelo ponto de vista de Nora.

É curioso notar que, apesar de serem lembranças marcadas pela tristeza e por um convívio constantemente atravessado por brigas, essa é a única referência de família que a protagonista possui. Atriz de teatro, incapaz de manter um relacionamento estável, Nora sofre crises de pânico antes de entrar em cena, revelando toda a sua insegurança diante da vida, já que perdeu suas raízes e referências no dia em que seu pai saiu de casa. Esse mesmo pai retorna agora, após o enterro da mãe, com um roteiro nas mãos, propondo que Nora seja a protagonista do novo longa-metragem que está preparando.

Valor Sentimental - filme
Renate Reinsve defende com precisão essa mulher fragmentada. A sequência da crise de pânico antes do palco é particularmente intensa. Estamos ali com ela, no camarim e na coxia, compartilhando a expectativa diante daquela tensão. Queremos que ela suba ao palco, mas, ao mesmo tempo, sentimos vontade de fugir com ela. Uma sensação que constrói um temor constante diante de qualquer novo desafio imposto pela vida.

O contraste com a personagem de Elle Fanning é extremamente rico. A atriz de Hollywood chega ao país cercada pela atenção da mídia, mas se emociona com o filme independente realizado por Gustav Borg anos antes e também demonstra admiração pela intensidade de um espetáculo teatral. Surge, então, uma reflexão sobre a relação entre filmes comerciais e obras de arte. Comparação que parece nunca perder relevância, ainda que ambos os campos possam ter seus méritos.

Valor Sentimental - filme
O reencontro entre pai e filha nunca é completo. Ele permanece suspenso, entre falas interrompidas, tentativas frustradas e constantes fugas. Ao contrário de Nora, sua irmã Agnes consegue interagir melhor com o pai, embora esse também não seja um relacionamento familiar ideal. Casada e com um filho, Agnes conseguiu seguir em frente, enquanto Nora permanece presa às dores de traumas passados.

Nesse dilema psicológico, a casa retorna em diversos momentos como símbolo. O lar como espaço de retorno, ainda que seja impossível trazer o tempo de volta. Um lugar de possível catarse, de confronto e discussão. Mais do que paredes e jardim, a casa abriga lembranças, dores e esperanças. Soma-se a isso o roteiro do filme que Gustav pretende dirigir. Uma obra que aborda dores profundas e o suicídio, trazendo revelações sobre seu próprio passado e nos aproximando ainda mais daquela família.

No ato final, a direção de Trier se mistura à de Gustav, trazendo momentos intensos e criativos, especialmente na elaboração de um plano-sequência que acompanhamos desde o planejamento até sua execução. É a cereja do bolo de uma obra marcada pela dor, mas também pela criatividade em sua construção. Valor Sentimental faz jus ao título. Um filme que não teme tocar em temas sensíveis e que nos envolve em sentimentos múltiplos, levando-nos a reconhecer, de alguma forma, nosso próprio desejo de pertencimento.


Valor Sentimental (2026 / Noruega)
Direção: Joachim Trier
Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt
Com: Elle Fanning, Renate Reinsve, Stellan Skargard, Inga Ibsdotter Lilleas
Duração: 133 min.

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