Dezesseis indicações ao Oscar. Um recorde histórico, superando obras como Titanic (1999), A Malvada (1950) e La La Land (2016), todas com quatorze indicações. Só esse feito já faz o filme de Ryan Coogler entrar para a história. Diretor conhecido por obras autorais e de forte apelo crítico, Coogler traz um terror autêntico para os holofotes de Hollywood, surpreendendo pela ousadia e pela capacidade de dialogar com símbolos diversos.
Michael B. Jordan interpreta os gêmeos Smoke e Stack que retornam à cidade natal para inaugurar um bar de blues. O espaço pretende ser um verdadeiro oásis para pessoas negras, mas na noite de inauguração, uma visita inesperada muda os planos dos irmãos.
Tal qual Jordan Peele, Coogler se apropria do gênero de terror para discutir questões bem mais profundas sobre pertencimento, religiosidade e sonhos. Não por acaso, o blues é o símbolo escolhido, assim como a lenda de que os verdadeiros artistas acabam abrindo portais entre os mundos. Não por acaso também, o vampiro canta folk e é um branco irlandês.
Ainda que Jordan em seu papel duplo seja apresentado como o protagonista, há controvérsias. Afinal, o garoto Sammie interpretado por Miles Caton, é que acaba tendo a verdadeira jornada, não apenas por ser a voz angelical, mas por todo o desenvolvimento da trama. E é não menos simbólico que esse personagem comece e termine sua jornada em uma igreja protestante.
A estratégia do roteiro de apresentar um momento de tensão logo de início e, em seguida, retroceder para mostrar como tudo começou é um recurso clássico, mas aqui funciona muito bem. O roteiro é fluido, instigante e envolvente, sabendo dosar informação e mistério sem didatismo. Vamos acompanhando aqueles personagens com curiosidade crescente, sempre instigados pela pergunta de como aquilo terminou exatamente do jeito que terminou.
A direção é precisa e confiante, sustentando um ritmo progressivo que não tem pressa de chegar ao clímax, permitindo que o clima, os conflitos e os símbolos se assentem. As cenas no bar são o grande ápice visual e sensorial do filme: música pulsante, cortes frenéticos e uma montagem que cresce em intensidade até desembocar na inusitada batalha final, onde terror, música e identidade se fundem de forma explosiva.
O grande trunfo de Pecadores é que não é uma história de vampiros, mas que os traz quase como pano de fundo simbólico. É a história de um povo, de um som, de um sonho. Um filme que nos envolve, diverte, faz sentir medo e refletir com toda grande obra e arte.
Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler
Com: Michael B. Jordan, Haille Steinfeld, Miles Caton, Jack O'Connell, Wunmi Mosaku, Jayme Lawson, Omar Benson Miller, Li Jun Li
Duração: 137 min.




