Estrada Real da Cachaça
O documentário de Pedro Urano levou o prêmio de melhor Documentário no Festival do Rio 2008 e Melhor Documentário Latino-Americano no Festival de Mar Del Plata 2008. Os títulos, no entanto, não o salvam de um roteiro confuso, apesar da proposta interessante de mapear a presença da cachaça na cultura brasileira.
Pedro Urano, que também assina o roteiro do filme, tem um plano muito claro, ele vai seguindo a antiga Estrada Real, feita para escoar o ouro do Império do interior de Minas até o litoral do Rio de Janeiro. O problema é que, após percorrer o distrito de Milho Verde até a bela Paraty, ele não constrói uma lógica em tela. Querendo falar de tudo ao mesmo tempo, acaba não falando de nada. Porque se perde na estética proposta, mistura estilos e tratamentos, assuntos e visões. O objetivo de mapear a presença da cachaça na cultura brasileira acaba ficando confuso em minha visão.
Se o filme fosse apenas esse recorte de ir colocando o que vai encontrando no percusso da estrada, dando voz às diversas pessoas em cada cidade, seja na beira da estrada filosofando, no alambique explicando, no bar confraternizando ou em alguma festa se divertindo, ótimo. Mas, Pedro Urano faz tentativas de construções míticas, como o início com os orixás e a presença de Exu, aquele que abre caminhos. Fala do medo dos europeus em relação as entidades e explica um pouco da história da estrada, alertando para que o responsável por abri-la, na verdade não teria sido os portugueses e sim, as antas e os índios. Aí, começa parte da mistura apontada. O filme mescla a linguagem dos documentários antropológicos com imagens de arquivos dos locais e efeitos gráficos repletos de inserts de sons de efeitos e músicas que servem de legenda muitas vezes desnecessárias. Como chegar na cidade de Paraty e ouvir a música Camisa Listrada ("Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí. Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati").
Mas, claro que há muitos momentos positivos. Toda a viagem pela estrada encanta. As pessoas são simples, abertas e a cultura encontrada é rica em vários aspectos. É muito interessante conhecer melhor o processo de fabricação da cachaça, desde a colheita da cana à retirada do caldo, bagaço e a fermentação. Temos as brincadeiras das pessoas que apreciam a bebida como a espécie de reza repetida por alguns personagens do filme "Cachaça, vê se não me aborreça, desça para barriga, mas não suba para cabeça". Um dos momentos mais interessantes é o encontro com as mulheres lavadeiras. Divertidas, elas falam sem máscaras e aqui, temos um exemplo claro do manual do documentarista de quando devemos desligar a câmera. Documentar não é fazer reportagem, então, os momentos de silêncio, os flagras, são as partes mais ricas. Após uma conversa rápida e uma risada, elas ficam em silêncio e a câmera permanece, podendo ver o silêncio incômodo que mostra muito delas.
Outro momento a ser destacado é na igreja, quando as pessoas utilizam a cachaça para limpar os santos locais com a justificativa de que conserva a madeira. Além do simbolismo interessante, da bebida, antes ligada à religião africana, limpando os santos católicos, temos belas imagens. Os detalhes são registrados, com a mão passando pelo rosto e corpo das estátuas. As pessoas na fila olhando, pegando um pouco da água benta misturada à bebida. Aliás, belas imagens nós temos em todo o documentário. As paisagens da estrada, as pessoas nas ruas, nos bares, no alambique. Temos cenas de manifestações nos terreiros de Candomblé. Agora, se Pedro Urano mantivesse essa estética natural, pura, tudo seria mais rico, quando ele tenta transformar em clipes modernos, inserindo músicas e efeitos, tudo fica estranho, confuso. Fora que não tem uma linha condutora clara durante o filme. A montagem é movida pelo que ocorrer.
Isso fica muito claro na quebra que acontece ao mostrar os garimpeiros. Durante uns vinte minutos, o filme esquece a cachaça e vai mostrar a busca por pedras preciosas e o comércio delas. Por mais que tenhamos a justificativa de que a estrada era do ouro e que a cachaça veio com ele, muda o foco. Vemos o problema dos garimpeiros hoje, vemos a lamentável forma como eles abordam os turistas, quase implorando para que eles comprem sua mercadoria. É um assunto que daria um documentário interessante, mas outro documentário. Como se não bastasse, vem a explicação da época do Império, do ouro que os portugueses tiraram de nosso país. Tudo isso com efeitos de fogo e ferro totalmente estranhos à estética dominante na obra.
Estrada Real da Cachaça pode ter ótimos momentos, ter um valor histórico importante e ser um trabalho de resgate e investigação ao mesmo tempo. A cachaça, vista de forma tão pejorativa por muitos, assume aqui o seu real valor, de um patrimônio nacional que serve para tudo. Alegria, remédio, encontro social e comércio. Mas, com todos os pontos positivos e prêmios por onde passou, falta algo que amarre melhor essa história. Falta uma decisão por estilo. Falta tornar o filme algo realmente atrativo. Da forma como está, é inconstante e confuso.
Uma pena que, das onze pessoas iniciais da sessão, apenas quatro ficaram para conferir o criativo crédito com a música de Luís Antônio e João do Violão na versão original de Elizeth Cardoso em 1973 (Eu bebo sim).
P.S. para os amantes da bebida a Academia da Cachaça tem um brinde para quem assistir o filme, veja detalhes no Cinema é Magia.
Estrada Real da Cachaça (Estrada Real da Cachaça: 2009 /Brasil)
Direção: Pedro Urano
Roteiro: Pedro Urano
Duração: 98 min
Pedro Urano, que também assina o roteiro do filme, tem um plano muito claro, ele vai seguindo a antiga Estrada Real, feita para escoar o ouro do Império do interior de Minas até o litoral do Rio de Janeiro. O problema é que, após percorrer o distrito de Milho Verde até a bela Paraty, ele não constrói uma lógica em tela. Querendo falar de tudo ao mesmo tempo, acaba não falando de nada. Porque se perde na estética proposta, mistura estilos e tratamentos, assuntos e visões. O objetivo de mapear a presença da cachaça na cultura brasileira acaba ficando confuso em minha visão.
Se o filme fosse apenas esse recorte de ir colocando o que vai encontrando no percusso da estrada, dando voz às diversas pessoas em cada cidade, seja na beira da estrada filosofando, no alambique explicando, no bar confraternizando ou em alguma festa se divertindo, ótimo. Mas, Pedro Urano faz tentativas de construções míticas, como o início com os orixás e a presença de Exu, aquele que abre caminhos. Fala do medo dos europeus em relação as entidades e explica um pouco da história da estrada, alertando para que o responsável por abri-la, na verdade não teria sido os portugueses e sim, as antas e os índios. Aí, começa parte da mistura apontada. O filme mescla a linguagem dos documentários antropológicos com imagens de arquivos dos locais e efeitos gráficos repletos de inserts de sons de efeitos e músicas que servem de legenda muitas vezes desnecessárias. Como chegar na cidade de Paraty e ouvir a música Camisa Listrada ("Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí. Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati").
Mas, claro que há muitos momentos positivos. Toda a viagem pela estrada encanta. As pessoas são simples, abertas e a cultura encontrada é rica em vários aspectos. É muito interessante conhecer melhor o processo de fabricação da cachaça, desde a colheita da cana à retirada do caldo, bagaço e a fermentação. Temos as brincadeiras das pessoas que apreciam a bebida como a espécie de reza repetida por alguns personagens do filme "Cachaça, vê se não me aborreça, desça para barriga, mas não suba para cabeça". Um dos momentos mais interessantes é o encontro com as mulheres lavadeiras. Divertidas, elas falam sem máscaras e aqui, temos um exemplo claro do manual do documentarista de quando devemos desligar a câmera. Documentar não é fazer reportagem, então, os momentos de silêncio, os flagras, são as partes mais ricas. Após uma conversa rápida e uma risada, elas ficam em silêncio e a câmera permanece, podendo ver o silêncio incômodo que mostra muito delas.
Outro momento a ser destacado é na igreja, quando as pessoas utilizam a cachaça para limpar os santos locais com a justificativa de que conserva a madeira. Além do simbolismo interessante, da bebida, antes ligada à religião africana, limpando os santos católicos, temos belas imagens. Os detalhes são registrados, com a mão passando pelo rosto e corpo das estátuas. As pessoas na fila olhando, pegando um pouco da água benta misturada à bebida. Aliás, belas imagens nós temos em todo o documentário. As paisagens da estrada, as pessoas nas ruas, nos bares, no alambique. Temos cenas de manifestações nos terreiros de Candomblé. Agora, se Pedro Urano mantivesse essa estética natural, pura, tudo seria mais rico, quando ele tenta transformar em clipes modernos, inserindo músicas e efeitos, tudo fica estranho, confuso. Fora que não tem uma linha condutora clara durante o filme. A montagem é movida pelo que ocorrer.
Isso fica muito claro na quebra que acontece ao mostrar os garimpeiros. Durante uns vinte minutos, o filme esquece a cachaça e vai mostrar a busca por pedras preciosas e o comércio delas. Por mais que tenhamos a justificativa de que a estrada era do ouro e que a cachaça veio com ele, muda o foco. Vemos o problema dos garimpeiros hoje, vemos a lamentável forma como eles abordam os turistas, quase implorando para que eles comprem sua mercadoria. É um assunto que daria um documentário interessante, mas outro documentário. Como se não bastasse, vem a explicação da época do Império, do ouro que os portugueses tiraram de nosso país. Tudo isso com efeitos de fogo e ferro totalmente estranhos à estética dominante na obra.
Estrada Real da Cachaça pode ter ótimos momentos, ter um valor histórico importante e ser um trabalho de resgate e investigação ao mesmo tempo. A cachaça, vista de forma tão pejorativa por muitos, assume aqui o seu real valor, de um patrimônio nacional que serve para tudo. Alegria, remédio, encontro social e comércio. Mas, com todos os pontos positivos e prêmios por onde passou, falta algo que amarre melhor essa história. Falta uma decisão por estilo. Falta tornar o filme algo realmente atrativo. Da forma como está, é inconstante e confuso.
Uma pena que, das onze pessoas iniciais da sessão, apenas quatro ficaram para conferir o criativo crédito com a música de Luís Antônio e João do Violão na versão original de Elizeth Cardoso em 1973 (Eu bebo sim).
P.S. para os amantes da bebida a Academia da Cachaça tem um brinde para quem assistir o filme, veja detalhes no Cinema é Magia.
Estrada Real da Cachaça (Estrada Real da Cachaça: 2009 /Brasil)
Direção: Pedro Urano
Roteiro: Pedro Urano
Duração: 98 min
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifacs e da Uniceusa. Atualmente, faz parte da diretoria da Abraccine como secretária geral.
Estrada Real da Cachaça
2011-06-27T08:48:00-03:00
Amanda Aouad
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