Estreia na direção de Haroldo Borges, Filho de Boi traz semelhanças com Jonas e o Circo sem Lona, filme anterior da Plano 3 Filmes, que ele roteirizou e foi diretor de fotografia. Se a obra dirigida por Paula Gomes, era um documentário com traços de ficção, aqui temos uma ficção com traços documentais. E, claro, a presença da arte circense.
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Luiz Carlos Vasconcelos
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Filho de Boi
Filho de Boi
Estreia na direção de Haroldo Borges, Filho de Boi traz semelhanças com Jonas e o Circo sem Lona, filme anterior da Plano 3 Filmes, que ele roteirizou e foi diretor de fotografia. Se a obra dirigida por Paula Gomes, era um documentário com traços de ficção, aqui temos uma ficção com traços documentais. E, claro, a presença da arte circense.
João é um garoto que vive em uma cidadezinha no sertão baiano. Tem uma relação difícil com seu pai e sonha sair dali. Principalmente porque vive de certa maneira isolado das demais crianças e adolescentes locais que fazem bullying com ele, chamando-o de filho de boi. Quando o circo chega à cidade, ele vê uma oportunidade de realizar seu sonho.
O jovem estreante João Pedro Dias consegue passar muito bem esse sentimento de não pertencimento. O incômodo com o julgamento alheio em relação a seu pai e a ausência da mãe. E o sonho de ir além do conhecido. Sua timidez também ajuda na construção dessa personagem que parece viver assustada, quase acreditando que não merece algo mais.
O filme trata dessa masculinidade frágil construída através de estereótipos, onde espera-se que o homem seja sempre forte, bruto e dominador. É curioso como não há um julgamento em relação à mãe do garoto, algo que poderia cair em uma lógica reversa do julgamento e cobranças que a sociedade machista coloca em cima da mulher. Ao mesmo tempo, há uma busca por ressignificar o papel masculino, em especial com a personagem do palhaço do circo.
O olhar observativo da câmera que acompanha aquela rotina constrói um tempo próprio da trama que vai nos aproximando daquele garoto. Seus medos e insegurança vão sendo desnudados e reconstruídos através do picadeiro. É a visão dele que temos, não do pai, nem da vila. Percebemos o mundo através de seu olhar.
Na verdade, Filho de Boi acaba sendo uma jornada de auto-conhecimento e assim, de ruptura com a figura paterna. Como todo adolescente que precisa negar os pais para se compreender enquanto ser individual, mas que depois está pronto para uma reconciliação. Como dizia Renato Russo, "você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como vocês". Só a maturidade nos faz compreender completamente isso.
Uma obra sensível que nos envolve com poesia e reflexão. Destaque ainda para a participação de Jonas Laborda, o mesmo do circo, mesmo que em um papel coadjuvante, é legal ver o menino crescendo e descobrindo outras formas de arte.
Filme Visto na 44ª Mostra de Cinema de São Paulo.
Filho de Boi (Brasil, 2020)
Direção: Haroldo Borges
Roteiro: Paula Gomes, Haroldo Borges
Com: João Pedro Dias, Luiz Carlos Vasconcelos, Vinicius Bustani, Wilma Macedo, Jonas Laborda
Duração: 91 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Filho de Boi
2020-10-30T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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