Mais do que um documentário, Na Cabine de Exibição é um experimento que traz consigo muitas teorias da comunicação. O diretor Ra’anan Alexandrowicz propõe um exercício, convida alguns alunos para ver vídeos da internet enquanto ele grava suas reações e conversa com eles.
Na Cabine de Exibição
Mais do que um documentário, Na Cabine de Exibição é um experimento que traz consigo muitas teorias da comunicação. O diretor Ra’anan Alexandrowicz propõe um exercício, convida alguns alunos para ver vídeos da internet enquanto ele grava suas reações e conversa com eles.
A ideia inicial pode ter sido uma amostra, uma pesquisa quantitativa, não sei. Mas o fato é que ele muda de ideia e se concentra em Maia Levi. A estudante estadunidense com descendência judaica assiste aos vídeos palestinos, mas para surpresa do diretor não se compadece do antagonista do exército israelense. Pelo contrário sua interpretação busca sempre indícios de que os vídeos podem ser armados.
“O filme só existe quando exibido”, aprendemos em teoria da análise fílmica. Ao acionar o dispositivo, a obra se realiza em sua apreciação. De alguma maneira, Maia está reconstruindo os vídeos que vê ao ser incentivada a interpretá-los para a câmera. Ao buscar o olhar da garota e tentar a todo custo que ela veja o seu ponto de vista, Ra’anan Alexandrowicz também está ressignificando aquilo tudo, porque, com sua interpretação, ele vai nos expondo uma visão de que aquela garota está errada em não perceber o erro de sua crença.
Em uma tentativa final de provar sua tese, ele chama novamente a jovem após uma passagem de tempo para a cabine de exibição. Agora ela não verá mais os vídeos simplesmente. Ela verá a si mesma vendo e comentando os vídeos. Essa experiência espelho traz uma imersão que daria para discutir outras tantas teorias. E serve para frustrar ainda mais o diretor que confessa o abalo com o resultado não esperado.
É curiosa essa lógica de buscar no outro sua própria interpretação. Muitas vezes não entendemos como alguém não está vendo algo. Do quanto gostamos de um filme e outra pessoa odeia, por exemplo. Quando entram convicções políticas e / ou religiosas isso ganham uma dimensão ainda maior. O embate entre a Palestina e o Estado de Israel é antigo e está longe de acabar. Na verdade, precede o próprio estado de Israel já que aquela sempre foi uma região de conflito. Não dá para simplificar em lado certo ou errado.
Por outro lado, imagens de violência são sempre questionáveis. Ainda que existam simulações como aponta Maia. Mas a garota não parece se abalar ou comover com as vítimas. Isso talvez seja o ponto que mais angustia o diretor. Ele se pergunta o tempo todo como ela não vê aquilo. Não deixa de ser um pensamento válido. Porém, como nos lembra Baxandal, a interpretação de uma obra de arte nunca é a obra em si. No final, não há certo ou errado, apenas pontos de vista.
Na Cabine de Exibição não traz grandes questões em sua linguagem. Boa parte da projeção é apenas o plano próximo da garota e as imagens dos vídeos, tendo a voz do diretor em off conversando com ela. Mas o dispositivo reflexivo nos faz embarcar naquela lógica junto com eles. Se cinema é espelho, temos aqui uma boa comprovação de sua tese.
Filme visto no 9º Olhar de Cinema de Curitiba.
Na cabine de exibição (Israel, EUA, 2020)
Direção: Ra'anan Alexandrowicz
Duração: 71 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Na Cabine de Exibição
2020-10-18T15:54:00-03:00
Amanda Aouad
cinema asiático|critica|Festival|OlhardeCinema2020|
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