Brasília respira política. Não poderia deixar de ser diferente. Capital do estado em um momento de transição. No Cine Brasília, tudo gira em torno do sentimento de reconstrução. No letreiro da entrada, vemos a frase: “A retomada do cinema brasileiro passa por aqui”.
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Festival de Brasília - Parte 1
Festival de Brasília - Parte 1
Brasília respira política. Não poderia deixar de ser diferente. Capital do estado em um momento de transição. No Cine Brasília, tudo gira em torno do sentimento de reconstrução. No letreiro da entrada, vemos a frase: “A retomada do cinema brasileiro passa por aqui”.
Não por acaso, começou com a exibição do novo longa-metragem de Adirley Queirós, agora em parceria com a diretora portuguesa Joana Pimenta. Mato Seco em Chamas é um retrato de Brasília e do país atualmente, em busca do seu espaço em meio a uma guerra de nervos, ideais e pontos de vista. Foi uma primeira noite intensa, com reencontros e festejos de esperança.
O segundo dia manteve o mesmo tom e discurso. Até a trilha sonora do Cine Brasília é temática, com diversas músicas "políticas" embalando a plateia enquanto a sessão não começa. A Competitiva Nacional trouxe o curta Nossos Passos Seguirão os Seus…, de Uilton Oliveira, do Rio de Janeiro, que resgata a memória do militante Domingo Passos que foi apagado da História das lutas operárias.
Uilton falou das dificuldades de encontrar material de arquivo durante a pandemia e com a Cinemateca fechada após o incêndio. Ainda assim, é possível construir uma proposta estética de resgate que dialoga com sentimentos e sensações passadas a partir de uma reconstituição. Destacando ainda o caráter político da obra, o cineasta pontuou que seu filme foi selecionado em festivais nos quais havia curadores negros entre a equipe, reforçando a importância da diversidade em todas as pontas.
Anticena, de Tom Motta e Marisa Arraes, do Distrito Federal, segundo curta da noite, também se propõe a uma discussão política e estética ao retratar um motoboy e duas estudantes de cinema em um processo de produção distinto. A intenção é boa, ainda que se perca em muitas referências que acabam se tornando vazias, como a utilização da revista Cahiers du Cinéma como objeto de cena. Há uma empolgação pelas referências e pela busca em questionar a linguagem, algo compreensível entre estudantes de cinema, como eles confessaram no debate, mas isso pode acabar se tornando apenas uma piada interna que afasta o público em geral, além de não ser algo inovador. De qualquer maneira, foi uma sessão empolgante para o público local. Eles estavam em casa, celebrando com amigos o primeiro passo que ainda pode ser muito promissor.
Espumas ao Vento, longa-metragem pernambucano de Taciano Valério fechou a noite, reforçando a importância dos filmes do interior e da alegria de vir de Caruaru. Durante o debate a equipe reforçou muito a importância de ser um filme do interior, feito no interior e o quanto isso é importante para as pessoas locais se sentirem valorizadas e representadas em cena. A atriz Rita Carelli falou sobre a importância da cultura popular e do mamulengo em sua formação enquanto artista e como pessoa, reforçando o tema que o processo que o filme busca defender.
Há muito de documental na trama, principalmente das dificuldades dos artistas populares e o aumento de igrejas em locais onde antes existiam espaços culturais, em especial cinemas. Conforme relatou o cineasta Taciano Valério no debate, a produção passou por muitas dificuldades, em especial a chegada da variante Ômicron, que acometeu parte do elenco, tendo que fazer mudanças no roteiro, chegando, inclusive, a matar personagem que não estava previsto morrer.
Essas e outras questões fazem o filme se perder um pouco nas alegorias, construindo uma obra que se torna equivocada em diversos aspectos, inclusive no ritmo. Acaba sendo uma projeção cansativa, mesmo com a curta duração. Ainda que seja válido a improvisação e espontaneidade que eles defendem no debate, um roteiro melhor desenvolvido poderia ajudar no processo e diálogo com o público. De qualquer maneira, a obra possui uma causa digna e retrata uma parcela importante da nossa cultura.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Festival de Brasília - Parte 1
2022-11-17T13:00:00-03:00
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