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O Que É Isso, Companheiro?
O Que É Isso, Companheiro?
Em 1997, o cinema brasileiro presenteou o público com O Que É Isso, Companheiro?, uma livre adaptação do livro homônimo de Fernando Gabeira. Dirigido por Bruno Barreto, o filme mergulha nas águas turvas da ditadura militar brasileira, oferecendo uma visão complexa e ambivalente de um período sombrio da história do Brasil. A obra, embora não isenta de críticas e polêmicas, traz elementos notáveis e instigantes que merecem nossa atenção.
Uma das características mais marcantes do filme é sua reconstituição de época impressionante. A equipe de produção, liderada por Bruno Barreto, conseguiu criar um ambiente que nos transporta diretamente para a década de 1960, capturando tanto os detalhes visuais quanto a atmosfera da época. Isso é fundamental para a imersão do espectador na trama, e demonstra o comprometimento com a autenticidade histórica.
O elenco, sob a direção de Barreto, desempenha um papel crucial na narrativa do filme. Pedro Cardoso interpreta Fernando, o personagem central, com uma mistura de ingenuidade e idealismo. O filme nos apresenta um grupo de jovens idealistas que, impulsionados por uma imensa coragem e desejo de justiça, se envolvem na luta armada contra o regime militar. Há uma certa falta de aprofundamento nas razões que levaram esses jovens a essa saída desesperada, mas o foco parece ser a humanização deles e a fuga dos estereótipos já estabelecidos sobre os envolvidos no movimento.
A abordagem do diretor em humanizar os personagens é notável. O filme mostra que, além de suas ideologias políticas, esses indivíduos eram seres humanos com medos, incertezas e, em alguns casos, fragilidades. Essa representação mais tridimensional das personagens traz uma nuance valiosa à narrativa, especialmente porque se distancia da típica representação maniqueísta dos envolvidos na luta armada.
A sequência do sequestro do embaixador é um dos momentos mais tensos e emocionantes do filme. A direção de Barreto e a montagem de Isabelle Rathery criam uma atmosfera angustiante que mantém o espectador à beira de seu assento. Essa cena é exemplar na construção da tensão, demonstrando a habilidade do diretor em contar uma história envolvente. O filme também aborda questões complexas da época, como a união dos estudantes em manifestações contra o regime e a luta pela liberdade de expressão e pelos direitos civis. Essas inserções no roteiro enriquecem a discussão levantada pelo filme, demonstrando a importância do movimento estudantil naquele período.
Mais um dos pontos positivos do filme é a maneira como ele retrata o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick. Diferentemente de muitos estereótipos de representantes do imperialismo, Elbrick é apresentado como um ser humano que condena os regimes de exceção e não apoia as ações da CIA. Essa nuance na representação é um ponto forte do filme.
No entanto, O Que É Isso, Companheiro? não é imune a críticas. Por vezes, o filme idealiza demais os militantes e retrata a guerrilha brasileira dos anos 60 como um grupo de jovens idealistas, mas ingênuos, e a forma como muitos dos personagens lidam com a luta armada não reflete a complexidade das decisões tomadas naquele período.
Apesar disso, o filme de Bruno Barreto é uma obra cinematográfica de qualidade. A excelente reconstituição de época, o roteiro bem trabalhado e o elenco competente são elementos que merecem destaque. Indo além, o filme ainda nos faz refletir sobre um dos períodos mais sombrios da história do Brasil, reforçando a importância de compreender e lembrar os eventos da ditadura militar.
O Que É Isso, Companheiro? é um filme que merece ser assistido. Ele não se esquiva de nos confrontar com as sombras do passado e nos incentiva a pensar sobre aqueles tempos sombrios. A produção de Bruno Barreto é uma lembrança poderosa da importância de se manter viva a memória histórica e de não esquecer os desafios que o Brasil enfrentou durante a ditadura militar.
O Que É Isso, Companheiro? (Four Days in September, 1997/ Brasil)
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Leopoldo Serran
Com: Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Abreu
Duração: 110 minutos.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Que É Isso, Companheiro?
2023-11-27T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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