29/05/2009
Grandes Cenas: Fale com ela
A cena de hoje foi uma sugestão de Lhais, se você tiver também uma cena favorita no cinema, comente que, na medida do possível, eu posto aqui.
Fale com Ela (2002) é um filme de Pedro AlmodóvarMesmo com as cores fortes, tão características do diretor, o filme não traz personagens tão exacerbados. Eles sofrem por amor, mas um amor mais contido. Mesmo em meio aos rompantes suicidas de Lydia, tudo é feito com mais plástica e poesia. A cena a ser analisada é o momento em que ela, perigosamente, doma o touro fazendo com que ele se aproxime o máximo dela. A toureira acabou de dar uma entrevista, onde a repórter falou abertamente do sofrimento da moça em relação ao término do namoro, dizendo que El Niño a usou para obter fama. Lydia irrita-se e sai no meio da entrevista, deixando a entrevistadora quase caída no chão.
A cena da tourada, ao contrário, é bela, plástica. Faço um parêntese aqui para dizer que não suporto touradas, o pobre bicho é maltratado para ficar nervoso, apenas para divertir meia dúzia de gente. Mas, enfim, a grande sacada do filme é o contraste das emoções de Lydia, da dureza e sofrimento do touro, de El Nino na platéia e da música, uma declaração de amor.
Aqui outra pausa para o efeito na platéia brasileira. Vi o filme no cinema e quando esta cena começou, o burburinho foi inevitável vários sons tímidos ecoando em surpresa: Elis?! Elis?! Elis?! Realmente, ouvir Elis Regina é sempre uma grata surpresa, ainda mais em um filme de Almodóvar. A música era "Por toda a minha vida" de Tom Jobim. E, como já falei, faz uma declaração de amor eterno. Amor de Lydia por El Niño e pelo touro, por aquilo que ela é e representa naquela arena.
Seus movimentos em câmera lenta, em um balé com o touro dão uma sensação de emoção contraditória na pláteia, que teme pela protagonista, já sabe que ela vai acabar em coma. E ao mesmo tempo de prazer que a música e a dança proporcionam. Desnecessária a conversa entre El Niño e seu acessor no meio, interrompendo aquele momento íntimo apenas para explicar que Lydia está ali, se arriscando, para chamar sua atenção e de certa forma se vingar do homem que a deixou.
O contraste de luz e sombra realçam a plástica da cena, além do sangue escorrendo do touro, que simbolicamente escorre também de Lydia, ferida por dentro. A câmera procura o touro, realçando o balé e deixando a platéia nervosa sem saber se aquele é o momento em que Lydia irá sucumbir. A imagem de Lydia, no entanto, continua impassível, segura de si e surpreendentemente forte.

A cena é pura emoção, feita para provocar efeitos contraditórios na platéia. Vale mais a pena vê-la do que falar sobre ela.






































5 opiniões:
Muito bom, Amanda!
29 de maio de 2009 23:43Gostei muito desse filme. Também não gosto de touradas, mas essas cenas são lindas no filme.
E Almodóvar escuta muito música brasileira e a mim não espantou ouvir Ellis, só agradou!
Abraço!
Realmente a cena é belíssima. Só me arrependo de não ter abordado Almodovar com Caetano na feira de Santo Amaro comendo pastel no final dos anos 90 - coisas da adolescencia.
30 de maio de 2009 10:10Não assisti muita coisa de Almodovar, mas este filme é sensível e triste ao mesmo tempo.
30 de maio de 2009 16:49Até mais.
Fred, com certeza, ouvir Elis sempre agrada aos ouvidos.
31 de maio de 2009 23:06Herculano, oh, pena, seria mesmo uma boa oportunidade. hehe. E uma foto histórica. Aliás, Caetano também está em Fale com ela, em outra bela cena.
Hugo, Almodovar tem coisas interessantes, mas todas são assim, sensíveis e tristes. hehe.
Amandinha, adorei!
4 de junho de 2009 16:07Tive novos olhares para a cena a partir do seu olhar, bom recordá-la. Foi uma das coisas mais preciosas que já vi no cinema. É uma beleza dura com a tenra música do Tom e sua melodia triste para nos aliviar a alma. Maravilhoso!
Valeu por colocar minha sugestão.
Lai
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