9 de abr de 2010

Quincas Berro d´Água

Paulo José e Marieta Severo"Imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irreparável"... "quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume".

Ontem teve a segunda exibição do filme Quincas Berro d´Água especialmente para o público blogueiro. Recém concluído, o longa foi exibido na quarta-feira em São Paulo e quinta-feira em Salvador. O público do Rio, que veria em primeira mão dia 06, poderá conferir no dia 13 de abril, já que a sessão foi adiada devido às fortes chuvas na terça-feira. É um feito curioso e não deixa de ser uma vitória das mídias sociais que despontam cada vez mais com forte influência nos meios de comunicação. O filme estreia dia 14 de maio em todo país, quando aquelas pessoas que não puderam estar nas três sessões poderão conferir o melhor de Jorge Amado e da boemia de Salvador.

Muitas coisas eu gostaria de falar desse filme. A começar pelo seu diretor e roteirista Sérgio Machado. Amigo pessoal de Jorge Amado, que o indicou para Walter Salles, Machado deve ter se esmerado em levar às telas essa história jocosa, cheia de trejeitos baianos como as linhas dos livros do escritor. Todos estão muito naturais e se sentindo em casa, até os cariocas e o pernambucano Irandhir Santos, o que ajuda na fruição do filme.

Estúdio de gravação armado na CodebaA história de Quincas é uma grande brincadeira em favor do povo e contra a sociedade hipócrita estabelecida. Então, é bom não levá-la tão a sério, é farra pura, um convite à diversão. Publicado em 1961, Jorge utilizou-se do mesmo recurso de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas para contar a história de seu morto - um narrador-defunto. E como defunto não tem contas a prestar com os vivos, diz tudo que lhe vem à cabeça, sem censura, nem pudores. Paulo José vive o boêmio do Pelourinho, que morre no dia do seu aniversário, mas seus amigos não querem aceitar essa peça do destino e o levam para comemorar em uma jornada hilária. Que ninguém compare ao besteirol Um morto muito louco como já li por aí. Jorge Amado dá um tom mais inteligente e sensível a essa jornada, que Sérgio Machado soube preservar.

Palmas para Paulo José, em sua entrega à carreira, utilizando as limitações de sua doença sem perder o fôlego. Destaque também aos quatro amigos de Quincas: Flávio Bauraqui (o Pastinha), Luis Miranda (o Pé-de-Vento), Irandhir Santos (o Cabo Martim) e Frank Menezes (o Curió) que estão ótimos nas situações mais diversas e engraçadas. Mariana Ximenes, no entanto, deixa um pouco a desejar como a filha do defunto. A moça já demonstrou interpretações mais inspiradas. E o baiano globalizado Vladimir Brichta está quase um figurante de luxo, como seu marido, mas suas poucas aparições são boas e convincentes.

A fotografia do filme, apesar da produtora ter avisado antes que a cópia que vimos ainda não está finalizada, está muito bem composta. Dando a dimensão da noite do Pelourinho, com muita penumbra e contraste, apoiada por uma direção de arte detalhada. O efeito especial da cena da tempestade também impressiona, principalmente com a explicação prévia de Frank Menezes, único do elenco presente na sessão de Salvador, de que foi toda montada em estúdio. Pra não dizer que não falei mal de nada, houve apenas um descuido com o defunto, já que em vários takes era possível perceber Paulo José respirando.

eu e Frank Menezes por Rodrigo ZebaFiquei muito feliz com Quincas Berro d´Água, pelo bom filme, pelo prestígio dos blogueiros, pelo crescente cinema nacional, pela memória do escritor Jorge Amado. Só estranhei o comportamento de alguns convidados saindo antes do encerramento da vinheta final, afinal é de bom tom esperar os créditos pelo menos em uma pré-estreia. De qualquer forma, valeu. Agradeço ao Núcleo da Idéia pela parceira e por todos que participaram da promoção, especialmente aos nove vencedores, espero que tenham se divertido tanto quanto eu. Para finalizar, o registro meu e de Frank Menezes na saída da sessão. Pena que não decorei nenhuma das "belas" poesias de Curió para acompanhar a legenda.


Amanda Aouad

Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, especialista em Cinema pela UCSal e roteirista de Ponto de Interrogação, Cidade das Águas e Vira-latas. É ainda professora de audiovisual, tendo experiência como RTVC e assistente de direção. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e da Liga dos Blogues Cinematográficos.

9 opiniões:

Caio Costa disse...

Realmente Amanda, essa pré estréia é uma vitória das redes sociais, com uma sessão tão exclusiva como essa. Foi muito bom contar com a sorte e poder conferir o filme.

PS: agora que te conheço, da próxima vez vou te cumprimentar pessoalmente =D

9 de abril de 2010 09:08 Excluir comentário
Alex Sandro Alves disse...

Olá Amanda!
Vi o trailer é achei divertido. Sem falar que sua temática me lembrou aquela comédia norte americana "Um Morto Muito Louco".
Abs!

9 de abril de 2010 09:43 Excluir comentário
Amanda Aouad disse...

Pois é, Caio, eu fiquei me perguntando "quem será o blogcitário?", hehe. Esse mundo virtual tem esses problemas. Mas, na próxima a gente se fala.

Alex, a palavra é essa mesma: diversão. O filme é muito bom nesse quesito.

abraços

9 de abril de 2010 10:05 Excluir comentário
Fernando disse...

Fiquei bastante interessado em assistir, ainda depois deste buzz em mídias sociais. Pra vc, baiana, o filme deve ter tido um sentido ainda mais especial, né? Esperar chegar aos cinemas para conferir.

Abraços

9 de abril de 2010 11:32 Excluir comentário
Fred Burle disse...

É a segunda crítica que leio e a segunda favorável. Minhas expectativas estão aumentando.
Acho o máximo este reconhecimento do "poder" dos blogueiros!
Mas esse negócio da saída antes dos créditos é comum. Pouca gente tem essa educação, infelizmente. Têm cabines aqui em Brasília que nem o projecionista deixa os créditos até o fim. Em Case 39, desligaram tudo antes mesmo de passar o créditos de elenco, ou seja, os primeiros!
Vira e mexe, quero ver até o filme, em busca de algum nome ou informação e quando desligam a projeção antes, fico revoltado. Humpf...

9 de abril de 2010 16:00 Excluir comentário
Cristal disse...

Também estive na pré-estreia de ontem e gostei muito do filme. Não esperava absolutamente nada e saí encantada por essa comédia inteligente, ao contrário do que infelizmente estamos acostumados.

Quanto as pessoas terem saído antes do final dos créditos, talvez o frio tenha colaborado... Pelo menos foi esse o meu caso. Eu estava pra morrer de frio, espirrando que nem uma condenada durante boa parte do longa.

Só achei que a data escolhida para essa sessão deveria ser mais próxima ao lançamento do filme. Só vi até agora textos positivos, e isso vai acabar gerando uma expectativa muito grande em quem os ler, e ainda falta um mês! Gostei do filme, mas não o acho bom o suficiente pra fazer jus a expectativas mais altas.

9 de abril de 2010 16:42 Excluir comentário
Amanda Aouad disse...

Oi, Fernando, por ser baiana fico feliz em ver o baiano sendo retratado sem tantos estereótipos típicos das produção Rio/São Paulo. A maioria dos atores eram baianos, o diretor e roteirista, o escritor adaptado também, então, fica mais fácil. Mas, acho que a obra de Jorge Amado já ganhou um status universal.

Pois é, Fred, é triste, em Coração Louco mesmo o povo nem esperou para ouvir a música que o cara passou o filme inteiro criando. Mas, até nas cabines? Fogo, né? Reclame.

Cristal, entendo o seu medo de expectativas, afinal quanto mais altas maior a frustração, mas o filme é bom mesmo, que podemos dizer? Você mesma falou que saiu "encantada por essa comédia inteligente, ao contrário do que infelizmente estamos acostumados." Agora, é uma comédia, ou melhor uma forma cômica de ver o drama da vida, diria. Nada tão profundo ou excepcional. É só esperar um bom e divertido filme, como eu falei.

abraços

9 de abril de 2010 19:43 Excluir comentário
Daniel Pepe disse...

Conferi a pré-estreia em São Paulo, mas aqui não tivemos a sorte de ter vindo alguém do elenco/produção. Achei também uma ótima diversão, despretensiosa. Gosto bastante dessa fotografia, com a diferenciação entre sombra e contraste. A direção de arte foi competente em retratar o Pelourinho e a época em que se passava a narrativa. Gostei de todos no elenco; dos que ainda não foram citados, ressalto Walderez de Barros em mais um papel cômico que certamente rendeu boas gargalhadas.

11 de abril de 2010 12:35 Excluir comentário
Amanda Aouad disse...

Verdade, Daniel, a caracterização do Pelourinho antes da reforma foi muito bem feita.
Quanto a Walderez de Barros, gostei também, só achei meio exagerado tantos "gases" no velório, hehe. No início tava bem engraçado, depois achei que ficou demais. Mas, não foi "culpa" dela.

bjs

11 de abril de 2010 13:43 Excluir comentário

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