17/06/2010

Kick-Ass - Quebrando meu juízo

Kick-AssPor que ninguém nunca tentou ser super-herói? A pergunta aparentemente idiota com uma decisão ingênua adolescente de vestir uma malha verde e sair pelas ruas esconde uma questão profunda. Cada vez mais em nosso mundo, o ser humano está egoísta e individualista. Somos capazes de assistir a um assalto e nem sequer dar um telefonema ao 190. Ou atropelar alguém e fugir sem dar socorro. Deixemos, então, Dave, ou melhor, Kick-Ass encher o mundo com um pouco de esperança.

Partindo dos quadrinhos de Mark Millar, Matthew Vaughn traz aos cinemas uma aventura com heróis mascarados sem super poderes, muita ação, tiro, sangue, elementos de histórias em quadrinhos, animação e uma trilha sonora de deixar meu professor de música cinematográfica feliz. O roteiro do próprio Vaughn com colaboração de Jane Goldman é linear, sem grandes inovações, mas que funciona muito bem. A narração over do personagem principal tem toques de humor sarcástico, típico da série, fazendo brincadeiras com outros quadrinhos - "sem poderes, não há responsabilidades" - e outros filmes - "Nunca viu Crepúsculo dos Deuses ou Sin City?" -, essa não posso explicar muito bem a piada para não dar spoilers.

O fato é que Dave vai às ruas como Kick-Ass e logo percebe que sua empolgação ingênua não é páreo para os bandidos de verdade que estão lá fora. É quando cruza seu caminho Big Daddy e Hit Girl, pai e filha, uma relação estranha e doentia em busca de vingança. Big Daddy, vivido por Nicolas Cage, é o protótipo do vingador, que perdeu totalmente a noção de certo e errado, criando sua filha como um soldadinho. A garota, muito bem interpretada por Chloe Moretz, tem por diversão treinar artes maciais e manusear armas. Sem falar dos testes do colete anti-balas, com seu pai atirando nela. Tudo muito doentio, mesmo com a explicação dos motivos disso. Com uma dose de sadismo exagerada, cenas fortes de pessoas explodindo ou implodindo, com muito sangue jorrando.

Kick-Ass, Big Daddy, Hit Girl e Red Mist

Apesar do argumento diferente, o filme não foge do maniqueísmo com o vilão típico Frank D’Amico vivido por Mark Strong e do herói puro vivido por Aaron Johnson. Há também o clichê do rapaz sem graça que dá a volta por cima e o sonho de todo adolescente de ser querido, com a adaptação para os tempos modernos onde ele tem site, perfil no MySpace e recebe pedidos de ajuda por e-mail. Ainda assim, o jogo da ação diverte, impressiona e envolve. A direção de arte é muito bem cuidada, inserindo elementos dos quadrinhos como legendas, fusão de cena com desenho e enquadramento. As cenas de ação são bem arquitetadas e os efeitos especiais são impactantes.

Cartaz de Kick-AssA trilha sonora é um ponto à parte, com músicas dinâmicas e contrastantes como a primeira ação de Big Daddy e Hit Girl, onde uma música irônica em meio a tanto tiro e sangue traz um efeito ímpar na cena, muito melhor do que se fosse apenas uma marcação comum. A cena com uma música de Mozart então, chega a arrepiar pelo contraste inteligente. O desenho musical apenas confirma o clima de ironia sem responsabilidades da trama.

Apesar do pilar profundo e do retrato bem feito de nossa sociedade, não é para se levar Kick-Ass a sério. É um filme de entretenimento, blockbuster e feito para divertir comendo pipoca. Antes de tudo é história em quadrinhos, uma boa história em quadrinhos, com um foco diferente, mas ainda assim HQ. Não dá para exigir uma tese de doutorado sobre o comportamento humano, nem um cine arte reflexivo. Mas, desde já, se coloca no mesmo patamar de Watchmen e Sin City.


15 opiniões:

Juliana disse...

Vi o traile e achei bem a cara de Watchmen, não curto muito isso não...

17 de junho de 2010 11:03
Robin disse...

Tô louco pra ver, o trailer empolga e com suas considerações, ainda mais...

abraços

17 de junho de 2010 11:06
Anônimo disse...

Sou fã dos quadrinhos Kick-Ass, tenho boas expectativas. Esse negócio de ser super-herói é o sonho de todo adolescente. Adoro a comparação dele com o Homem-Aranha.

17 de junho de 2010 11:19
Larissa Paim disse...

Puxa, eu vou assistir só por causa do seu texto!

17 de junho de 2010 11:58
Bianca disse...

Sinapse interessante. Mas sou mais a versão Robin Hood.

Gostei do comentário: "Cada vez mais em nosso mundo, o ser humano está egoísta e individualista" Será? É a falta de tempo...

17 de junho de 2010 13:05
Renan Barreto disse...

Eu to muito curioso pra ver esse filme!!!

17 de junho de 2010 13:57
Reinaldo Glioche disse...

Estou muito ansioso para conferir este filme. Conhecia a HQ de Millar (embora nunca a tivesse lido, pelo menos não me lembro). Não gostei de Watchmen, achei o filme fraco, dispersivo e incapaz de reproduzir o clima da obra original, mas Sin City é uma boa referência.

bjs

17 de junho de 2010 15:26
Fernando disse...

Eu só vi o trailer até agora e até agora posso dizer que me simpatizei com a arte do filme e a história um pouco boba, mas divertida...

17 de junho de 2010 18:02
Kamila disse...

Amei o trailer de "Kick-Ass" e tenho lido bons comentários sobre o longa. Argumentos suficientes para me deixar com muita vontade de conferir a obra.

17 de junho de 2010 20:39
Fred Burle disse...

Engraçado que postamos quase ao mesmo tempo sobre este filme e reparamos basicamente nos mesmos pontos!
Concordo plenamente com você. Pensei em citar Sin City, mas achei que estava ficando louco e só eu tinha reparado nisso! rsrs
Também o coloco no mesmo patamar dos dois filmes (Watchmen e Sin City).
Abraço!

18 de junho de 2010 17:02
Amanda Aouad disse...

Juliana, é um filme de nicho mesmo. E que a imprensa oriente bem para não acharem que é infantil, vi uma família com duas crianças, uma quase de colo entrando, o menor chorou no primeiro sangue voando. Saíram no meio da sessão.

Robin, pra quem gosta do estilo, empolga mesmo.

Anônimo, então, vá sem medo. Realmente, as piadas com Homem-Aranha são ótimas.

Larissa, depois não me culpe se não curtir o estilo. kkkkk.

Bianca, é interessante, e sim, o individualismo reina... infelizmente.

Veja e me fale, Renan.

Reinaldo, eu gostei de Watchmen, achei que conseguiu uma certa fidelidade, mas Kick-Ass é melhor.

Fernando, a solução de se fantasiar é boba, mas a questão é que a forma é totalmente irônica. Ele brinca com várias referências do mundo pop e dos quadrinhos. É divertido, mas com um humor negro.

Kamila, também tinha gostado muito do trailer e não me decepcionei.

Fred, esses dias estavam corridos e nem fiz minhas visitas diárias, por isso, vou conferir sua crítica agora... O clima de Sin City tem semelhanças, principalmente na ironia. E ambos trazem referências da forma dos quadrinhos. Além, claro, da locução over. Que bom, que voltamos a entrar em sintonia, hehe.

bjs

18 de junho de 2010 19:57
bruno knott disse...

Ótimo filme.

A trilha sonora é fantástica mesmo, consegue melhorar ainda mais as cenas...

E como você falou, Kick-Ass = diversão de qualidade, não é para esperar mais do que o filme oferece. Que aliás, é muita coisa boa.

Enfim, fiquei com bastante vontade de ir atrás da HQ!

Abs.

19 de junho de 2010 11:13
Amaury Oliveira disse...

Um filme extremamente colorido, no sentido mais rude da concepção.
O filme é em sua estrutura completa, uma daquelas piadas que os falsos moralistas possuem aversão.
Esta obra possui várias sequências exageradas, que criam um clima caricatural, tudo isso aliado á violência estilizada, que contribui para a formalização de um longa divertido e empolgante.
Contudo, o final do filme é sua contraponto mais forte. Em meio ao tom descontraído criado ao longo de toda a narrativa, surge um tom de seriedade que desconstrói toda sua proposta. Originando assim um filme ordinário e sem noção.
Ponto positivo para Chloe Moretz que sempre rouba a cena com sua desenvoltura cheia de estilo.

13 de julho de 2010 02:17
Amanda Aouad disse...

Deu vontade que ler as histórias também, Bruno. Ainda não pude fazer isso.

Amaury, entendo seu ponto de vista quanto ao final, mas não acho que chegue a tornar o filme ordinário, afinal não dá para satirizar o tempo todo. E aquela última luta continua caricatural, assim como a frase de Red Mist. Quer mais caricatura que aquilo?
abraços

13 de julho de 2010 09:00
Amaury Oliveira disse...

Compreensível, até pode-se imaginar que não dá para satirizar do início ao fim, mas acredito que a perda total de lucidez faça com que o filme seja sugado pela sua própria proposta, nos apresentando heróis sem poderes e viloes apáticos. Como se Kick Ass se assumisse como um filme de super herói, mesmo sem possuir qualquer poder especial.
De qualquer forma, obrigado por este bom espaço para discussão de cinema. Realmente muito interessante, estruturado e com opiniões sensatas, favoritado.

Abraço.

13 de julho de 2010 17:08

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails
 

Licença Creative CommonsBlog CinePipocaCult by Amanda Aouad is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas License
Based on a work at www.cinepipocacult.com.br
Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.cinepipocacult.com.br