A grande estrela de Hollywood

Há uma semana do Oscar 2010, acredito que a melhor dica é conferir os filmes indicados, por isso, estamos com um link destacando todos os posts relacionados a filmes indicados, alguns filmes ainda entrarão durante essa semana, mas uma boa parte já foi analisada aqui por mim.

Resolvi então, fazer um balanço da carreira daquela que é, sem dúvidas, a maior recordista de indicações: Meryl Streep. Foram dezesseis indicações, sendo três a melhor atriz coadjuvante e treze a melhor atriz principal. Dois prêmios, sendo que o último foi em 1983. Os fãs não aguentam mais esperar, foi duro ver, por exemplo, ela perder para Gwyneth Paltrow em 1999. Ano que, para nós brasileiros, teve um gostinho a mais com Fernanda Montenegro entre as cinco indicadas.


Eu considero também uma lástima ela não ter sido nem mesmo indicada pela atuação em A Casa dos Espíritos, outra grande interpretação. Dúvida e O Diabo Veste Prada com certeza seriam outras grande interpretações que mereciam um prêmio. Já Julia Child, a personagem desse ano, não está entre minhas favoritas, mas é possível que vença, principalmente após o Globo de Ouro. A disputa está bem equilibrada junto a Sandra Bullock, com leve favoritismo para esta ao que tudo indica, mas tem ainda Carey Mulligan correndo por fora.

A melhor atuação disparada foi seu segundo prêmio e primeiro na categoria de melhor atriz. A Escolha de Sofia de 1983 é a situação mais dolorosa que uma mãe pode passar. Em plena Segunda Guerra Mundial, a judia tem que escolher qual dos seus dois filhos irá ser solto e qual será condenado a morte. Que tal? Dar toda a carga dramática necessária para este dilema era uma tarefa para uma grande atriz e Meryl Streep provou ali que ela não precisava provar mais nada para nenhum crítico. Ela tinha imortalizado seu nome em definitivo.

Seu primeiro Oscar, ao contrário do que alguns pensam, não foi de melhor atriz, e sim, de atriz coadjuvante em Kramer versus Kramer. A confusão é mais do que justa, afinal, apesar de Dustin Hoffman ser a alma da história junto ao seu filho, fico me perguntando quem seria a atriz principal desse filme. Ela é a Kramer da história. Sua atuação como Joanna, a mulher que sai de casa e depois volta querendo a guarda do filho é impecável. Foi bom a troca de categoria, seria complicado ela ganhar de Sally Field naquele ano.

Tirando sua participação em Adaptação como a escritora neurótica e sua primeira indicação em O franco-atirador, dois papéis coadjuvantes, todas as outras indicações foram grandes protagonistas e todos merecem destaque. Falarei aqui de minhas quatro preferidas: Dúvida, O Diabo Veste Prada, As Pontes de Madison e Entre dois Amores.

Em Dúvida, Meryl Streep interpreta a Irmã Aloysius Beauvier com uma precisão impressionante. Toda a carga dramática daquela severa mulher é transposta para sua expressão facial e corporal. Basta ela aparecer na tela para que todos se calem em respeito e medo. Ainda assim, ela foi capaz de tornar crível a descarga emocional dessa personagem tão fechada em um determinado momento do filme. Eu gosto muito de Kate Winslet em O Leitor, mas acho que o justo seria ter dividido esse prêmio.

Já Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada é encantadoramente miserável. Aquela espécie de mulher que amamos odiar. Fina, inteligente, sagaz, tudo na composição de Streep ajuda a admirarmos aquele ser sem emoções. O seu tom de voz é um ponto alto da interpretação, sempre baixo, suave, sem exageros. Mas, Helen Mirren foi uma premiação justa.

As Pontes de Madison não traz uma grande carga dramática, um melodrama sensível, um sonho impossível. Clint Eastwood dirige e estrela o filme como o fotógrafo que encanta a casada Francesca. A interpretação dos dois nos faz torcer por aquele amor proibido. É um papel que nos mostra que para ter uma boa interpretação não precisa ser um personagem com uma carga dramática tão grande, nem uma catarse inesquecível. Ainda assim, Susan Sarandon mereceu o prêmio do ano.

Por fim, Entre dois Amores, outro dilema amoroso. A história da baronesa Karen von Blixen-Finecke, que provavelmente inspirou parte da história de Austrália, é bastante peculiar. Casada por conveniência ela se vê entre dois amores que mexem com essa estrutura: O continente africano e o caçador Denys Finch Hatton vivido por Robert Redford. Outra interpretação impecável, com doses de romance e sofrimento. Agora, apesar de Geraldine Page ter levado o prêmio, acredito que quem merecia era mesmo Whoopi Goldberg por A Cor Púrpura.

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Educação

Antes de mais nada, vai um desabafo: sinceramente eu não sei o que estava na cabeça da Academia de Hollywood ao incluir este filme entre os cinco indicados a melhor roteiro adaptado. Nick Hornby construiu um roteiro totalmente previsível e cheio de clichês baseado nas memórias de Lynn Barber. Nem mesmo a virada final salva o longa. Chega a dar um desânimo. Não que a história de Jenny não mereça ser contada, o argumento é bom, faz pensar, refletir sobre a utilidade da educação ao contrastar com o desejo de aproveitar a vida. Mas dizer que o roteiro é um dos cinco melhores do ano é forçar muito.

Cartaz EducaçãoAnalisando friamente a projeção, vamos então para o que tem de melhor nela: Carey Mulligan. A garota conseguiu dosar muito bem o drama de sua personagem, uma estudante dedicada e pressionada ao extremo por seu pai que a quer ver na Universidade de Oxford, e que de repente conhece, digamos assim, o lado bom da vida. Tudo era cinza para Jenny até conhecer David, um sedutor homem mais velho que tem uma lábia invejável e consegue tudo o que quer no papo. Para vocês terem uma idéia, no aniversário de Jenny ela ganha o mesmo presente do pai e do pretendente a namoradinho: um dicionário de latim, matéria em que ela ainda não está cem por cento para ser aceita na universidade. Por outro lado, David lhe mostra um mundo de diversões, concertos, torneios, viagens e presentes que toda garota gostaria de ter. Tudo vai acontecendo até o momento crítico em que ela vai ter que decidir qual vida é melhor para ela.

Nisso reside o outro ponto positivo do filme, a reflexão. Quantas pessoas já se perguntaram qual o sentido de estudar tanto, juntar dinheiro em nome de uma segurança na velhice? O contraste das dúvidas da adolescente com a vida de sua professora são bastante profundos, nos levando a refletir sobre as nossas próprias vidas. São poucas as cenas, mas sugestivas e instigantes. Só não entendi muito bem a função de Emma Thompson no elenco com apenas três cenas lamentáveis. A professora vivida por Olivia Williams já cumpria perfeitamente esse papel de reflexão. Uma pena o desperdício de uma atriz tão potente como Thompson. Já Alfred Molina (o pai) e Peter Sarsgaard (David) compoem muito bem os dois pontos de apoio da protagonista e ajudam no processo decisivo do filme.

Emma Thompson em Educação

A direção da dinamarquesa Lone Scherfig é segura, coerente, traduzindo bem o aspecto retrô, já que a história se passa na década de 60. Tem cenas sutis como o primeiro encontro de David e Jenny no meio da chuva, o aniversário da garota ou o momento chave, que traz uma tensão brilhante ao revelar aos poucos o fato.

Quando tudo parece se encaminhar para um ponto, vem a virada, previsível para os mais atentos em perfil de personagem, mas forte. Porém, nem isso salva o vazio que o roteiro deixa. É quase uma crônica do cotidiano, que muitos podem dizer que também é válida. Concordo, tudo é válido nessa vida. E Educação não chega a ser um filme ruim, tem pontos interessantes, envolve o espectador. Mas daí a figurar como melhor filme e melhor roteiro, acho um pouco de exagero.

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E continua a onda 3D

Toy Story
Recentemente, James Cameron reclamou da onda de 3D que invadiu Hollywood. Você pode estar pensando: "mas logo ele?". De fato, o homem que quis reinventar o cinema não quer que a invenção se banalize. Claro que cinema em 3D já existe há mais tempo do que podem supor. Quem não lembra daquele óculos bizarro de papel com uma lente azul e outra vermelha? O 3D evoluiu, as câmeras evoluíram e, de repente, a indústria viu no sistema uma tábua de salvação contra a pirataria. Tudo, mesmo que não filmado para o formato, começou a ter versão com a nova dimensão. E como se não bastasse, velhos sucessos estão voltando, digamos assim, remasterizados.

É o caso do primeiro longa-metragem da Pixar que revolucionou o mercado de animação. Toy Story está prestes a ganhar sua terceira parte, e claro, será totalmente em 3D. Além disso, a Pixar resolveu relançar os dois primeiros filmes nos cinemas, com a versão acrescida da terceira dimensão. A idéia pode ser boa, afinal, é mais uma forma de chamar a atenção e ganhar um troco com a bilheteria. Só me pergunto até que ponto Cameron não teria razão sobre a tal banalização. Será que cansaremos da novidade? Já surgem televisões no formato e até a Rede Globo fez sua primeira experiência gravando o carnaval do Rio em três dimensões.

O fato é que, no mundo em que vivemos, as novidades tendem a surgir e serem disseminadas com uma velocidade cada vez maior. E o combate a pirataria virou desculpa para tudo. Os produtores de Alice mesmo, o novo filme de Tim Burton, diminuíram o tempo de lançamento do filme em DVD em alguns países alegando que a medida é contra os piratas. Isso acabou gerando alguns boicotes ao filme.

Voltando ao 3D, não acredito que ele ou qualquer outra medida mirabolante acabe com a pirataria. Nem todos tem o apuro crítico para lamentar um filme achatado, com uma legenda errada ou mesmo uma imagem ruim. O grande problema, principalmente no Brasil, é mesmo no bolso. Cinema está cada vez mais caro. Um passeio em família no fim de semana não fica por menos de cem reais. Em 3D então, é ainda mais caro. Segundo estatísticas, menos de 10% da população vai aos cinemas. Aí, um pai de família que ganha um salário mínimo vê em cada sinaleira o filme que o filho tanto quer por cinco reais, cai na tentação. É triste, mas é a realidade do nosso país. Queria podermos voltar ao tempo em que minha mãe era menina e a Rua Chile tinha cinema popular lotado, por um preço bem acessível.

Já que não podemos viver dessa nostalgia, fiquemos observando aonde a indústria irá nos levar em sua próxima ideia mirabolante. Ah, e hoje, tem Toy Story em 3D nos cinemas, quem puder, aproveite.

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Rapidinhas

Veja só

O "inexperiente" Nicolas Chartier (segundo da esquerda para direita) quis ganhar o Oscar no grito, ou melhor, no e-mail. O produtor de Guerra ao Terror teria enviado mensagens aos jurados mais influentes da Academia pedindo votos para o seu filme... Pode ter feito uma grande besteira, como falou muito bem Ana Maria Bahiana.

Brasil
Hoje finalmente estreia Inquilinos, novo longa de Sergio Bianchi. Com um elenco variado e uma temática bem instigante, parece ser um filme menos panfletário do diretor.

Sinopse: Valter estuda de noite. Iara, sua mulher, diz que os novos inquilinos não trabalham, que devem ser bandidos. Ninguém sabe de onde vieram os três rapazes, Iara diz que eles levam mulheres para casa e falam palavras sujas. Os jovens da rua querem ir para a briga, Valter quer dormir. Ele não tem uma arma, tem uma filha e um filho pequenos, fica fora o dia inteiro, não vê o que se passa na rua, ouve o que a mulher diz, o que a rua diz, ouve o barulho da música e das risadas dos inquilinos, de madrugada. E não consegue dormir. Quem vai morrer? Valter não sabe.


Outras estreias
Outras duas estreias que chamam a atenção são: Simplesmente Complicado e Educação. O primeiro traz Meryl Streep em mais uma comédia romântica, mas em se tratando dessa atriz tudo parece ganhar novo fôlego. Este papel lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro que perdeu para si mesma em Julie e Júlia. Já no filme inglês, o destaque fica por conta de Carey Mulligan que venceu o Bafta de melhor atriz e disputa o Oscar com Streep e Sandra Bulock, apesar de aqui suas chances serem bem menores.

Sinopse de Educação: A trama mostra a transição da adolescência à idade adulta de uma jovem que vive no Reino Unido, no início dos anos 60, durante um período de costumes rígidos que se seguiu à Segunda Guerra Mundial para a década liberal que viria a seguir. O roteiro foi adaptado de um texto autobiográfico da jornalista Lynn Barber, publicado originalmente na revista literária Granta.

Sinopse Simplesmente Complicado: Um casal divorciado há mais de dez anos volta a se encontrar e começam a se envolver romanticamente. O único problema é que o marido, interpretado por Alec Baldwin, casou-se novamente com uma mulher muito mais jovem que ele.

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Persepolis

Cartaz de Persepolis Comum é um adjetivo que jamais poderia ser atribuído a Marjane Satrapi. Sua biografia, então, também deveria ir contra tudo que já foi visto. Foi assim que em 2002 ela resolveu lançar quatro volumes de uma história em quadrinhos contando sua vida passada entre o Irã e Viena. Anos depois, ao resolver adaptá-la para o cinema, mais uma novidade. Persepolis, um longa-metragem em animação preto e branco. Apelo popular, pode-se ver que não teve nenhum, mas como tudo que é muito estranho chama a atenção e vira cult, o longa levou três prêmios (Festival de Cannes, Roterdã e Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) além de várias outras indicações a exemplo do Oscar de animação que perdeu para Ratatouille.

Marjane criança

Persepolis é uma mistura de Mafalda com Caçador de Pipas, conseguindo ser original em seus dramas, questionamentos e adaptações. Chama a atenção a perspicácia daquela menina que vê sua vida sendo virada ao avesso aos poucos, sem entender porque tem que começar a se esconder e agir de maneira diferente na rua. Vê ainda seus vizinhos sendo presos, seu tio sendo solto e preso novamente e é obrigada a morar sozinha em Viena para ser protegida de toda aquela confusão.

Marjane e DeusConfesso ter gostado mais da parte de Marjane criança. Os traços continuam os mesmos, a direção é cuidadosa e brinca com as possibilidades da animação mesmo sendo essa simples, mas a graça era contrastar a inocência perspicaz com o mundo muitas vezes mesquinho, machista e sem cor. Bem ao estilo de Mafalda mesmo. Até as conversas com Deus que a menina tem são instigantes, simples e diretas, sem intermédio. Um momento muito forte é quando a menina rompe com Deus após uma decepção muito grande.

Mas, Marjane cresce em um país estrangeiro, passa por muito preconceito e sofre de amor, como qualquer adolescente. A diferença é que a garota não pertencia àquele mundo e, ao retornar ao seu país natal, também não pertence mais a ele. O choque de ideologias é bem retratado em todos os momentos e isso faz de Persepolis um grande filme. É uma história de vida com linguagem fácil, honesta e cativante de todas as formas.

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O Enigma da Pirâmide

Cartaz de O Enigma da Pirâmide E já que ontem eu falei do possível substituto a Harry Potter, hoje resolvi relembrar um precursor do bruxinho. Trata-se, na verdade, do Jovem Sherlock Holmes, uma livre adaptação de Chris Columbus, dirigido por Barry Levinson com a produção de, vejam só, Steven Spielberg. Clássico da Sessão da Tarde, o filme inventa, e faz questão de ressaltar isso, uma juventude do famoso detetive que nunca foi pensada por Arthur Conan Doyle. Aqui, Holmes é apenas um estudante promissor e acaba de conhecer seu novo colega de quarto, o atrapalhado John Watson. Os dois garotos ficam amigos e, junto à senhorita Elizabeth Hardy, vão tentar desvendar um grande mistério que assola a Londres Vitoriana, suicídios inexplicáveis de pessoas, antes sensatas, em surtos estranhos. O clima do colégio inglês é bem parecido com o de Hogwarts, com direito a um garoto louro que se acha o máximo e é desafeto do herói e um professor enigmático que parece defendê-lo de tudo.

Aventura e suspense são bem dosados no roteiro, com uma produção impressionante para o ano de 1985. O filme chegou a ser indicado ao Oscar de efeitos especiais, tendo sito o primeiro a introduzir um personagem em computação gráfica no cenário real. Há vários momentos interessantes nesse intuito, principalmente nas alucinações que as vítimas têm antes de cometerem o ato insano contra a vida. O ponto negativo fica por conta da interpretação extremamente caricatural de Susan Fleetwood na parte final do filme. No geral, mesmo os jovens conseguem dosar bem o tom.


Nicholas Rowe como Sherlock Holmes e Alan Cox como John Watson Feito nos tempos de hoje, com certeza o longa teria continuações podendo se tornar uma saga de sucesso. Mas na época era apenas mais um filme a ser passado na Sessão da Tarde. Interessante como a indústria cinematográfica mudou com o passar do tempo. Mal contabilizou a primeira semana da bilheteria e lá vem anúncio da parte dois. Não dá para saber até que ponto isso é bom ou ruim. Afinal, a saga do jovem Sherlock Holmes tinha tudo para dar certo. Há um clima divertido, inteligente, sagaz no texto, misturando fatos históricos com aventura, bem ao sabor da Saga de Harry Potter, como já foi dito. Gostaria de ter visto uma continuação dos mesmos autores, ainda que fosse em formato de seriado, a exemplo de Smallville. O que parece que vem por aí é uma série de livros que, se fizer sucesso, pode voltar em forma de filmes. Só nos resta aguardar.

Em tempo, o nome O Enigma da Pirâmide foi acrescido ao original, The Young Sherlock Holmes, para aproveitar o sucesso de Indiana Jones e o Templo da Perdição lançado no ano anterior. Aliás, a cena da pirâmide, lembra muito as cenas do templo, com os fanáticos cantando, um ritual medonho acontecendo e os heróis escondidos assistindo do alto.

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Percy Jackson e o ladrão de raios

Percy JacksonNão há como evitar à comparação com Harry Potter ao assistir a Percy Jackson. Da série Percy Jackson e os Olimpianos, escrito por Rick Riordan, o filme conta a história de um garoto que descobre ser um semideus, filho do Deus Poseidon, e é acusado de roubar o raio de Zeus. O garoto começa a ser perseguido, então, por vários seres mitológicos, além do próprio Hades - Deus do submundo e dos mortos, por uma coisa que ele nem sabia que existia.

Assim como Harry, Percy descobre que pertence a um mundo de fantasia, possui poderes que ele desconhece e encontra um local cheio de pessoas igual a ele. Aqui, em vez de um castelo escola, temos um acampamento bem parecido com as aventuras de Xena. Percy também ganha dois amigos inseparáveis que o ajudam nas aventuras. Grover, o sátiro, tão atrapalhado quanto Rony, e Annabeth, a filha de Atena, uma excelente lutadora dentro do acampamento (igual a Hermione, a CDF de Hogwarts), porém que fora dele parece esquecer tudo o que sabe e se torna uma vítima a ser protegida por Percy (isso, eu realmente não entendi). Para completar, ele tem um mentor, o centauro vivido por Pierce Brosnan, e desobedece suas ordens para agir de maneira própria e se tornar o herói do dia.

Percy Jackson e o Ladrão de Raios Sou fã de mitologia Grega, sempre me interessei pelo assunto, e ver a salada mista modernosa feita pela saga me incomodou um pouco. Afinal, porque os Deuses se mudaram de vez para os Estados Unidos? A porta do inferno é em... Hollywood? A entrada do Olimpo, o Empire States? E o jardim da Medusa, o que estava fazendo no Oeste dos Estados Unidos? Tá, eles tentam dizer que os deuses se locomovem ao passar do tempo, em busca do local mais poderoso do mundo. Tá, a gente engole essa, mas o que comentar sobre o cassino de Las Vegas com suas lótus alucinógenas? Sem dúvidas, a sequência mais sem sentido de todo o filme. Se já tínhamos pouco tempo, para que gastar tanto com os três dançando ao som de Lady Gaga?

Eu não li o livro, mas pretendo fazê-lo em breve, pois alguns indícios do que vi e ouvi me fazem crer que a história é um pouco mais do que essa simplória aventura infantil, cheia de clichês pseudo-engraçados e piadas lamentáveis. A história, da forma como o roteiro foi construído é totalmente vazia e cheia de furos que acredito poderem ser mais embasados no livro. A começar pelo mote principal: o roubo do raio de Zeus. Por que o ladrão óbvio é Percy, se ele nem sabia do que se tratava? E como Hades vai até o acampamento, rapta a mãe do garoto, faz uma ameaça na fogueira e ninguém diz nada? Onde estavam Zeus e Poseidon? E por que Zeus chamou todos os deuses para o Olimpo e deixou Hades agir por conta própria?

Na verdade, o roteiro caiu no mesmo erro de todos os filmes norte-americanos: sempre tem que haver um vilão, a personificação do mal. Que fique bem claro, Hades não é o diabo e o reino dos mortos não é o inferno. Essa é uma definição muito dualista e vazia de nossas mentes ocidentais judaico-cristãs. Para os gregos, nem tudo era tão preto no branco. E pelo que li, nem mesmo Rick Riordan cometeu esse erro em seus livros. Foi o filme mesmo que resolveu simplificar tudo. De quebra, ainda colocou Perséfone como uma mulher vulgar que fica entusiasmada com Grover.

Alguns efeitos são interessantes, principalmente os da água. Uma das melhores sequências do filme é a luta de Percy em cima de um prédio utilizando as caixas d´água do local. Outros poderiam ser melhor trabalhados, como o minotauro que fica muito artificial e o jardim da Medusa que é meio pobrinho, apesar das cobras na cabeça de Uma Thurman serem bem reais. No geral, o filme não passa de um divertimento infantil, que tem pouco a acrescentar ao mundo adulto. Mas, o filme Harry Potter e a Pedra Filosofal também era assim. Por isso, minha esperança em ler o livro e ver se as continuações acrescentam algo mais interessante.


Para completar, o filme ainda traz uma piada infame após os créditos, se quiser conferir...

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Bafta esquenta apostas ao Oscar

Se estava quase certo o prêmio de Avatar para o Oscar 2010, após a premiação inglesa muitos começaram a pensar duas vezes, afinal, Guerra ao Terror levou o prêmio de filme e direção do Bafta deste ano. Claro que Avatar não seria mesmo o estilo inglês, mas o fato do filme de Kathryn Bigelow continuar se destacando em premiações pelo mundo (neste foram seis prêmios) é um indicador de que a disputa americana não será fácil. As certezas ficam apenas pelos prêmios de Up (melhor animação), Christoph Waltz (por Bastardos Inglórios) e Mo’Nique (por Preciosa), se um desses três não levar o Oscar vai ser a maior surpresa de todos os tempos. Up ainda levou a melhor trilha sonora do prêmio inglês e as surpresas ficaram por conta do ator e atriz para Colin Firth e Carey Mulligan. Já Bastardos Inglórios ter perdido melhor roteiro para Guerra ao Terror foi um exagero dos ingleses. Agora é esperar pelo dia 07 de março.

MELHOR FILME
Guerra ao Terror

MELHOR DIRETOR
Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)

MELHOR ATOR
Colin Firth (Direito de Amar)

MELHOR ATRIZ
Carey Mulligan (Educação)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mo’Nique (Preciosa)

MELHOR FILME BRITÂNICO
Fish Tank

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Un Prophète (França)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Up – Altas Aventuras

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Guerra ao Terror

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Amor Sem Escalas

MELHOR FOTOGRAFIA
Guerra ao Terror

MELHOR MAQUIAGEM
The Young Victoria

MELHOR FIGURINO
O Brilho de uma Paixão

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
Avatar

MELHOR SOM
Guerra ao Terror

MELHOR EDIÇÃO
Guerra ao Terror

MELHOR TRILHA SONORA
Up – Altas Aventuras

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
Avatar

MELHOR CURTA-METRAGEM
I Do Air

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Mother of Many

MELHOR REVELAÇÃO
Duncan Jones – Lunar

Prémio Orange Rising Star (Público) - atriz em ascensão
Kristen Stewart

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Depois da vida

Depois da VidaSe você só pudesse guardar uma lembrança de sua vida, qual você escolheria? É interessante que o momento mais importante de nossas vidas raramente é algo grandioso ou complicado. São pequenos gestos, atos que trazem grandes emoções, como sentir a neve pela primeira vez, um carinho de sua mãe ou instantes com a pessoa amada em um parque. Valendo-se disso, o japonês Hirokazu Koreeda fez Depois da Vida, um filme que causou grande impacto entre público e crítica por retratar um local intermediário entre a vida e a morte, quando os recém falecidos têm uma semana para escolher o momento mais marcante de sua existência que será a única lembrança levada para o próximo estágio que não fica muito claro no filme qual seria.

O local é um prédio velho, uma espécie de escola abandonada, com várias salas. Os personagens são divididos em dois grupos, os instrutores e os recém falecidos. O primeiro momento do filme é quase documental. Os instrutores são designados para determinados casos e entrevistam os candidatos, explicando o que acontecerá. Eles têm três dias para relembrar a vida e escolher uma memória, nos outros dias, a equipe irá recriar o momento e no último dia, todos assistem e são liberados para a nova etapa apenas com essa lembrança na memória.

Cartaz de Depois da VidaOs candidatos são de todos os tipos, desde uma criança que lembra logo da Disney a uma senhora bem idosa que só dá risada e observa a janela. Em vida, ela já havia tido uma doença onde perdera parte da memória. Há, também, um senhor que só quer lembrar de suas aventuras em um bordel. Mas os dois personagens que se destacam são Watanabe e Iseya. Iseya é um jovem rebelde que simplesmente se recusa a escolher uma lembrança. Ele afirma a todo tempo que não é que não possa, ele simplesmente não quer escolher. Sua atitude é um questionamento sobre o sentido de tudo aquilo, o significado da memória, o porquê escolher apenas uma lembrança. A recusa é um apego sincero que todo ser humano possui a tudo que passou. E por ser tão jovem ainda está na fase de questionar o que poderia ter vivido. Ele chega a perguntar se poderia escolher um sonho.

Já Watanabe é um senhor, perto dos oitenta anos, que não consegue lembrar algo tão importante em sua existência que justifique a escolha. Ele solicita uma revisão da vida e passa os dias assistindo as fitas, uma fita para cada ano que viveu. Nesse ponto, sua história se cruza com a do assistente Mochizuki, que apesar da aparência jovem, já morreu há 50 anos e seria contemporâneo de Watanabe. Há algo na lembrança do recém falecido que toca profundamente o instrutor e, a princípio, a gente apenas supõe o que seja. Seu incômodo chama a atenção de Shiori, sua auxiliar, que tenta ajudá-lo.

Surpreendentemente simples, a direção nos leva em uma viagem interior de questionamentos sobre o que realmente é importante, tornando Depois da Vida um filme marcante. A reconstrução da memória, no entanto, é bastante esquisita. Em um estúdio precário, de uma maneira bem mambembe, as lembranças são recriadas com os candidatos interpretando a si mesmos. Acredito que a sensação de reviver aquilo é o mais importante, já que as fitas reais existem e eles poderiam simplesmente assistir. O ato de recriar, relembrando os detalhes é que importa. Uma espécie de última catarse antes do fim. Ou do começo, sabe-se lá o que Hirokazu Koreeda imaginava que viria depois dali.

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Muito além do jardim

Chance assiste TV Tenho quase certeza de que ao escrever o roteiro de Forrest Gump, Eric Roth bebeu um pouco na fonte de Muito além do jardim, filme de Hal Ashby produzido em 1979. Peter Sellers interpreta brilhantemente Chance, um jardineiro que passou a sua vida dentro de uma casa se dividindo entre as plantas e a tela de televisão. Quando o velho homem que era seu patrão morre, ele tem que sair. O problema é que, pela vida que levou, ele é quase um autista. Completamente alienado do mundo, só entende o que ele vê na televisão ou quando fala de jardinagem.

Cartaz de Muito Além do JardimEntra aí a semelhança com o filme de Robert Zemeckis. Como um passe de mágica, tudo começa a dar certo para Chance. Ele conhece um influente homem norte-americano, tem uma audiência com o presidente do país, é convidado para entrevistas em programas de televisão e festas importantes, simplesmente porque sua análise econômica de forma "metafórica" é considerada genial. E, claro, também tem o relacionamento com Eve, vivida por Shirley MacLaine. Chance é um garoto ingênuo confundido com um gênio, tal qual Forrest.

Muito Além do Jardim é uma grande crítica aos Estados Unidos e seus valores (este é mesmo um país de brancos, diz uma personagem ao ver Chance na TV), à comunicação de massa (eu não leio jornais, só vejo televisão, diz Chance) e à carência do ser humano que aceita qualquer coisa para se sentir melhor.

Bia Abramo, em um artigo da Folha de São Paulo, definiu a televisão como “de certa forma, avessa ao pensamento. O fluxo de imagens sem hierarquia, a linguagem que estabelece sua sintaxe pela alternância de sensações, a ausência de silêncios; tudo isso conspira contra o pensar. O que, aliás, é justamente um dos atrativos da televisão, ou seja, sua capacidade de amortecer o pensamento, fazer esquecer, alienar, é um dos principais motivos de sua enorme popularidade” (fonte). O que esperar, então, de um homem que foi criado pela televisão?

Ao contrário do meio de massa, o filme de Hal Ashby nos faz pensar. Cada cena, cada pseudo metáfora, cada frase ou atitude de Chance nos mostra a realidade da vida e como as pessoas são influenciáveis por aquilo que elas querem escutar. O roteiro é brilhante aos intercalar diversas pessoas comentando e descobrindo o jardineiro Chance como novo guru econômico americano. É nesses comentários e reações que percebemos aquilo que Ashby quis mostrar, principalmente no diálogo final: somos todos marionetes, resta saber até quando vamos viver nessa passividade.

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Doze homens e uma sentença

Pode-se dizer que Sidney Lumet começou sua carreira com o pé direito ao dirigir em 1957 o clássico roteirizado por Reginald Rose. Doze homens e uma sentença é uma obra-prima dos filmes de tribunal, que consegue prender a nossa a atenção em uma hora e meia dentro da sala de um júri que tem que decidir se um garoto de dezoito anos matou ou não seu pai, sendo assim condenado à cadeira elétrica.

Cena de Doze Homens e uma Sentença

É interessante perceber que o filme começa com o juiz dizendo que o júri deve se reunir e decidir pela inocência ou culpa do réu, sendo que a culpa só deve ser votada se não houver nenhuma dúvida. Não somos apresentados ao caso, vamos descobrindo no decorrer da discussão dentro da sala. Os doze homens se reunem e fazem uma votação preliminar. Onze não têm dúvidas de que o garoto é culpado e querem logo ir embora. Mas a voz do jurado número oito, vivido por Henry Fonda, se faz valer e começa a trajetória de questionamentos, análises dos fatos e discussões sobre a certeza e a dúvida do veredito.

Os doze homens conseguem defender seus papéis de forma impressionante, o já citado nº 8 , Henry Fonda é o questionador, não se pode condenar um rapaz a morte tão rapidamente, é preciso discutir os fatos, verificar se não há furos. Como ter tanta certeza de que ele é culpado? Martin Balsam, faz o jurado nº 1, que é o relator e sempre procura organizar as discussões. Ed Begley, o preconceituoso jurado nº 10 e Jack Warden, o jurado nº 7 que só queria ir para um jogo de beisebol, são os principais contrapontos de Fonda, travando brigas memoráveis. Joseph Sweeney faz McCardle, o jurado nº 9, primeiro a dar apoio ao questionamento justo do nº 8. Os demais vão sendo levados pela trajetória: John Fiedler (jurado nº 2), Lee J. Cobb (jurado nº 3), E.G. Marshall (jurado nº 4), Jack Klugman (jurado nº 5), Ed Binns (jurado nº 6), George Voskovec (jurado nº 11), Robert Webber (jurado nº 12), mas sempre mantendo o nível de tensão e discussão.

Cartaz original de Doze Homens e uma Sentença
É importante ressaltar que o que importa ali não é se o garoto é culpado ou inocente de fato, mas se há margens à dúvida. A constituição americana deixa bem claro que "todos são inocentes até que se prove o contrário". Então, não se trata de provar sua inocência, mas sim, de verificar se foi realmente provada sua culpa. Todo o jogo psicológico vai sendo baseado em analisar as "provas" da promotoria e perceber onde há brecha para uma falha, uma dupla interpretação ou mesmo, um engano.

Mas, nem só de roteiro, diálogos e interpretações se sustenta o filme. O lugar da câmera e os elementos de cenas são importantíssimos para criar o clima de tensão. A sala fechada, com um ventilador que não funciona dá uma sensação exata do calor que os homens sentem, tanto que, aos poucos, estes vão tirando o paletó, afrouxando a gravata e procurando molhar o rosto no banheiro. E a câmera de Lumet vai se fechando à medida que o "cerco" vai sendo fechado ao redor do caso. Começa-se com uma câmera mais aberta, por vezes do alto. No meio do filme, ela já está sempre em plano médio. No final, todos os planos são bem fechados, closes, detalhes. A claustrofobia vai sendo formada. Tudo é muito tenso e nem percebemos que se passou uma hora e meia, envolvidos naquele veredito.

É fato que vamos sendo induzidos a acreditar na dúvida desde o princípio, afinal, o garoto não pode ser condenado à morte em menos de um minuto, sem ao menos discutirem o caso. Mas, a forma como as evidências vão caindo é fascinante, tornando Doze homens e uma sentença um dos melhores filmes de tribunal de todos os tempos.

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Grandes Cenas: Os fantasmas se divertem

Beetlejuice, o nosso Besouro Suco Dois anos antes de dirigir seu primeiro grande filme (Edward Mãos-de-Tesoura), Tim Burton nos brindou em 1988 com uma comédia rasgada que virou clássico da nossa Sessão da Tarde: Os fantasmas se divertem. Alec Baldwin e Geena Davis são um casal recém falecido que precisa pedir ajuda a um fantasma muito esquisito, Beetlejuice, vivido por Michael Keaton, para expulsar uma família de vivos de sua casa. Winona Ryder, em seu segundo papel no cinema, vivia a filha exótica desta família, única que se comunicava com o casal de mortos. Curiosamente, a cena escolhida, considerada por muitos a melhor do filme, tem apenas Ryder presente e sua participação é quase nula.

Mais da metade do filme passou e o casal Adam e Bárbara já tentou de tudo para assustar os intrusos. Vale lembrar que eles estavam presos à casa pela eternidade, por isso queriam tanto expulsar os outros. Após apelar para Beetlejuice e perceber que o fantasma é muito baixo-astral, os dois resolvem agir por conta própria pela última vez. O casal Delia e Charles, vividos por Jeffrey Jones e Catherine O'Hara, estão dando um jantar em casa. Oportunistas que só pensam em lucro, eles fazem um jantar com o advogado da família e um casal interessado na casa, quando os fantasmas agem. O advogado pergunta a Delia sobre o que ela quer falar e esta responde cantando Banana Boat Song. A princípio, apenas a anfitriã canta. Aos poucos, todos os membros da mesa começam a agir como se estivessem possuídos.

Cartaz de Os Fantasmas se divertemO jogo de câmeras é simples, todos em plano médio, intercalados por uma geral da mesa. A grande graça da cena está mesmo na interpretação dos atores e na situação em si, ridícula. Winona Ryder fica apenas no canto, dando risada, é a personificação da nossa reação, vendo aquilo. Catherine O'Hara dá um show intercalando a entrega à música e a expressão de "o que eu estou fazendo?". É como se cada um ali brigasse com uma força maior que os faz dançar e cantar.

É interessante perceber a sincronicidade da coreografia. Primeiro, apenas Delia canta e todos os outros olham, estranhando, é a introdução da música. Charles vai dizer algo e os dois se levantam com o início da música propriamente dita, vale ressaltar que eles estão nas duas cabeceiras da mesa, o que dá um equilíbrio a cena. Quando o coro entra, os convidados se manifestam mexendo os lenços. Então, a coreografia segue, com passos engraçados e desconcertantes, com todos balançando o bumbum pra cima. Enfim, melhor ver a cena, do que ficar aqui descrevendo-a.

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Já é carnaval - Pára pra acertar!

Começou a folia e, em Salvador, fica impraticável falar de outra coisa que não seja carnaval. Por isso, estou viajando e o blog vai dar uma pequena pausa, voltando na quarta-feira de cinzas. Quem não gosta de correr atrás do trio elétrico, nem das escolas de samba, a pedida é mesmo fugir para uma praia ou se trancar em casa com muito filme e pipoca. Boas opções não faltam, tanto na televisão quanto no DVD.


Para quem quer ficar no meio termo, uma dica é relembrar os tempos da Atlântida, onde filmes carnavalescos eram sempre uma boa opção. Citando apenas alguns, temos "Alô, Alô, Carnaval" (1936), "Tristezas Não Pagam Dívidas" (1944), "Este Mundo É Um Pandeiro" (1947), "É Com Este que Eu Vou"(1948), "Carnaval no Fogo" (1949), "Aviso aos Navegantes"(1950), "Carnaval Atlântida" (1952), "Guerra ao Samba" (1954) e "A Voz do Carnaval" (1933).


O filme mais emblemático do carnaval do Rio, é mesmo Orfeu. Baseado na peça de Vinícius de Morais, teve duas versões. Uma francesa que, em termos cinematográficos, é mais interessante, apesar de ser caricato ao extremo ao retratar o morro e o samba. E uma brasileira, bem mais ou menos, dirigida por Cacá Diegues, com Tony Garrido no papel principal, que dá um charme na cena do desfile da escola de samba. O mico fica por conta de uma cena desconcertante de Caetano Veloso tocando violão em cima de um telhado.


Um clássico do cinema nacional também se utiliza do carnaval como mote de sua história. Trata-se de Dona Flor e seus dois maridos, afinal, Vadinho morre vestido de baiana em pleno Pelourinho em dia de carnaval. Outro sempre lembrado é "Quando o Carnaval Chegar" (1972) que traz Chico Buarque no papel principal.


Agora, nem só de passado vive o nosso carnaval, filmes contemporâneos também se utilizaram do tema. Ó Paí, Ó (2006), Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha (2006) ou o baiano Três Histórias da Bahia (2001). Isso falando apenas daqueles que o tem como tema principal.


Com ou sem carnaval, no entanto, o bom mesmo é aproveitar um feriado para ver muitos filmes. Bom divertimento.

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Up in the air

Cartaz de Up in the air Ultimamente ando pegando no pé dos tradutores brasileiros para títulos, mas é que é tão esquisito chamar esse filme de Amor sem Escalas, que sou obrigada a falar em Up in the air, uma espécie de "no ar", estado em que Ryan Bingham, personagem de George Clooney, vive. No último ano, ele passou 322 dias viajando e apenas 43 em casa. Além disso, Amor sem Escalas parece nome de comédia romântica, coisa que o filme de Jason Reitman está longe de ser.

Com um roteiro bem construído, escrito com Sheldon Turner, o diretor traz uma evolução de Juno, com humor inteligente, piadas oportunistas e puxadas de tapetes muito legais. A tão temida crise americana é vista aqui como oportunidade ímpar de lucro, afinal, Bingham, trabalha em uma empresa que demite pessoas. Pulando de um aeroporto ao outro, onde sente-se em casa, o "empresário", visita diversas empresas fazendo parecer aos dispensados que estão tendo uma nova oportunidade de vida. Nas horas vagas, ele ainda dá palestras motivacionais, onde explica porque devemos nos livrar das amarras da vida, tanto materiais quanto pessoais. Sua filosofia nômade é ameaçada, no entanto, pela chegada de Natalie, uma jovem vivida por Anna Kendrick, que tem a infeliz idéia de modernizar o serviço demitindo pessoas por videoconferências.

George Clooney em Amor sem escalas

Além da possibilidade de perder a vida que tanto ama, Bingham tem que levar a garota em suas viagens para mostrar sua técnica. Em paralelo, duas outras situações ameaçam o espírito do protagonista. O casamento da irmã caçula e a chegada de Alex Goran, com Vera Farmiga muito bem no papel da seguradora independente. Tudo vai se encadeando de uma forma suave, com cenas memoráveis à exemplo da mensagem desconcertante do namorado de Natalie ou a simulação de demissão que Bingham faz.

George Clooney caiu como uma luva no papel, nem precisa fazer muito esforço com seu sorriso carismático. Vera Farmiga dá um charme especial ao filme e Anna Kendrick consegue um bom resultado dosando a insegurança da personagem e a vontade de inovar, sem deixar de acreditar em seus valores. Há reviravoltas surpreendentes no filme, principalmente quando você acha que ele vai apelar para o clichê. Na verdade, Jason Reitman se utiliza de um clichê forte, perto do final do filme, quando o protagonista tem sua epifania, mas que serve apenas para nos levar a crer em um final e nos derrubar logo depois. A única cena completamente desnecessária é a que acontece com o genro no casamento da irmã. Soa meio forçado.

No geral, o filme é muito bem contruído e amarrado, nos levando a uma aventura improvável, nunca pensei que alguém pudesse viver de demitir pessoas, mas muito instigante. Não chega a ser o filme do ano, mas é uma boa opção de divertimento.

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The Blind Side

Cartaz de The Blind Side John Lee Hancock começa o filme com uma narração de Sandra Bullock explicando a função de um quarterback e linebacker. A explicação aparentemente solta serve para evidenciar a função do nome do filme em inglês, "o lado cego", que se refere ao mesmo tempo à posição do jogo e à metáfora de uma parcela da sociedade que vive nesse "lado cego", sem que ninguém se preocupe ou faça nada. Por isso, o título original é mais fiel ao filme do que Um sonho possível, até porque nosso protagonista era tão apático que nem mesmo tinha um sonho, ele ia deixando a vida o levar.

O filme é baseado na história real de Michael Jerome Oher, um garoto negro, pobre, filho de uma viciada em crack que é adotado por uma família rica e branca tornando-se um astro do futebol americano. O longa é uma espécie de mistura de Preciosa e Invictus, com uma dose de fantasia um pouco mais desconcertante. Não sei até que ponto tudo ali é real, mas tudo parece romanceado demais para ser crível. Aristóteles em sua Poética já dizia que, em uma narrativa, é melhor você escolher coisas irreais, mas críveis, do que coisas reais, mas incríveis. É o conceito da tal verossimilhança que falta em Um Sonho Possível. Tudo é fácil demais para o jovem Michael. Não há um grande conflito e os que aparecem são frouxos e facilmente resolvidos.

Sandra Bullock em Um sonho possívelO filme começa com Big Mike sendo aceito em uma escola porque o professor esportivo o vê jogando basquete. Ele é apático, perdeu no teste de Q.I, quase não presta atenção nas aulas, mas fica lá, no seu mundo. Interessante que o professor gosta dele por vê-lo jogando basquete, mas o coloca no time de futebol, que ele nunca tinha jogado na vida, só por seu tamanho. Uma noite de frio, ele passa andando pelo carro da família de Sandra Bullock e ela resolve levá-lo para casa. Em uma conversa surreal, ela deixa o garoto dormindo no sofá da sala e fala ao marido que não sabe se ele roubará nada, mas se no dia seguinte ela descer e gritar, ele ligue para seguradora... Admiro tanto despredimento material. A partir dessa noite, o garoto vai ficando e se tornando membro da família, melhorando nos estudos e aprendendo a jogar futebol. Em outra cena irreal, Sandra Bullock visita a mãe de Michael e discute com os traficantes locais. No mundo real, no mínimo ela levava um tapa, talvez um tiro, mas tudo bem.

Sandra Bullock em Um sonho possível
Um sonho possível fala de esperança, de valores familiares e de superação, mas o problema é que ele não aprofunda nada disso. O roteiro vai passando superficialmente por tudo como se dissesse "não sei como foi possível, só sei que foi assim". Sandra Bullock está realmente muito bem como a perua loura de bom coração, mas nada excepcional. Após ver sua atuação começo a torcer pelo terceiro Oscar de Meryl Streep, apesar de ter dito que a interpretação da atriz em Julie e Júlia não merecia o prêmio. Na verdade, a interpretação chave do filme é do garoto Jae Head, que faz S.J., o irmão adotivo de Michael. Quinton Aaron é apenas honesto em seu Big Mike.

O fato é que a história do garoto negro, gordo e pobre (tal qual Preciosa) que encontra a superação pelo esporte de uma forma meio mágica, vencendo jogos improváveis (como em Invictus), pode ter conseguido sua indicação ao Oscar, mas não atinge a profundidade necessária para um bom drama. Ainda assim, é um filme a ser visto.

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Pequenas Histórias

Pequenas HistóriasSe tem um segmento que ainda é pouco explorado no Brasil é o filme infantil. A maioria das vezes, só resta à criança Xuxa e Os Trapalhões. Filmes como Tainá, Grilo Feliz ou Castelo Rátimbum ainda são poucos, mas já são uma alternativa que aos poucos vai crescendo e ganhando espaço. Assim, achei interessante descobrir Pequenas Histórias. Dirigido por Helvécio Ratton, que já tinha feito O Menino Maluquinho, o longa é, na verdade, uma junção de quatro curtas, costurados pela personagem de Marieta Severo. A atriz interpreta uma senhora na varanda de sua fazenda que conta histórias ao espectador ao mesmo tempo em que borda uma colcha de retalhos. O tom é bem infantil, didático e com uma linguagem televisiva, mas não deixa de ser interessante. Principalmente por explorar a cultura popular brasileira.


O primeiro "causo" é sobre a Iara, sereia do rio que envolve o pescador Tibúrcio com seus encantos. Patrícia Pilar soa meio artificial na pela da sereia, principalmente por sua cauda mal produzida, ainda assim, é engraçado acompanhar o desfecho do casal. O segundo é sobre uma lenda do interior onde toda noite de lua cheia as almas saem em procissão do cemitério e quem for visto por elas irá morrer. O menino Vevé, interpretado muito bem pelo menino Constantin de Tugny, fica impressionado com a história, gerando situações engraçadas. O terceiro, e melhor curta, é sobre um Papai Noel de loja falido. Paulo José dá vida a esse homem azarado que parece não ter mais esperanças na vida, até que o espírito do natal ilumina seu coração. Por esse papel, o ator ganhou o prêmio do Festival de Paulínia. O último conto é sobre Zé Burraldo, em uma interpretação cômica de Gero Camilo. O sertanejo burro que sofre vários golpes, se mete em trapalhadas e surpreende muita gente. É divertido de assistir.

Pequenas Histórias

O filme foi escolhido como melhor longa-metragem infantil pela Academia Brasileira de Cinema em 2009, tendo vencido também como melhor roteiro e melhor ator (Paulo José) no Festival de Paulínia. E não é para menos. Como falei, há uma ingenuidade gostosa em sua produção, lembrando-me minha infância com as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. Marieta Severo está a própria contadora de histórias, com um tom bem maternal que instiga as crianças. Sua colcha de retralhos unindo os contos lembra a solução do filme de mesmo nome que tem Winona Rider no papel principal. Ainda assim, é uma solução bem interessante e tem tudo para conquistar as crianças.

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Dicas da Semana

Cinema
Guerra ao terror 
Depois de ser lançado diretamente no DVD devido ao descaso nas bilheterias, e ganhar espaço nas principais premiações do ano, incluindo a indicação de 9 Oscars, chega aos cinemas o filme de Kathryn Bigelow. Vale a pena conferir, adenalina pura nesse longa quase documental.

Sinopse: O filme acompanha um esquadrão antibombas do exército americano em missões no Iraque. A apenas 38 dias de completarem um ano de serviço e voltarem para casa, eles sofrem a baixa do comandante da equipe, que é substituído por um soldado muito menos cuidadoso consigo mesmo e com os outros.

DVD
Tempos de Paz
O filme de Daniel Filho baseado na peça de Bosco Brasil chega às locadoras. Apesar dos vícios televisivos do diretor, a história vale, principalmente pelo texto e interpretações de Dan Stulbach e Tony Ramos.

leia crítica

Sinopse: Segismundo (Tony Ramos) é um ex-oficial da polícia política do governo de Getúlio Vargas e um ex-torturador frio. Tempos depois, vira chefe na área de imigração, na Alfândega do Rio de Janeiro, e tem a missão de evitar a entrada de nazistas. Lá cruza com o polonês Clausewitz (Dan Stulbach), suspeito de ser um espião nazista. O polonês terá que convencer Segismundo de que não é um seguidor de Hitler.

Up Altas AventurasUp - Altas Aventuras
Favorito absoluto a longa de animação no Oscar, chega aos DVDs esse sucesso da Pixar. Uma boa pedida para quem não gosta de carnaval.

leia crítica

Sinopse: Filme conta a história de um velho vendedor de balões de 78 anos, chamado Carl Fredricksen, que finalmente realiza o sonho de toda sua vida e prende milhares de balões a sua casa para voar sobre as florestas da América do Sul. Mas ele descobre, tarde demais, que seu pior pesadelo o acompanhou na viagem: um explorador da natureza, excessivamente otimista, de 8 anos, chamado Russell.


Televisão
O Leitor 
- TeleCine Pipoca - 09/02 - 17:30
Filme que deu o Oscar a Kate Winslet, este longa de Stephen Daldry conta uma história bem peculiar envolvendo a segunda guerra mundial e a Alemanha Nazista.

Sinopse: Michael (David Kross na juventude e Ralph Fiennes na idade adulta) relembra aquele que, provavelmente, foi o momento definitivo de sua vida - quando seu amor juvenil, uma mulher mais velha chamada Hanna Schmitz (Kate Winslet), foi presa e julgada pelos nazistas. O que o jovem verá no tribunal é algo que vai de encontro a tudo aquilo em que ele acredita.

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Nine - Vamos repensar o cinema?

Mulheres de NineComeçando sua carreira como roteirista do neo-realismo italiano, Federico Fellini nunca foi muito adepto das regras do movimento, apesar de muitos estudiosos o classificarem como tal. Após seu oitavo filme, o cineasta estava em crise, achava que não tinha mais nada a dizer. Resolveu colocar sua angústia na tela e intitulou o filme como Oito e Meio. Fellini dizia que era um grande mentiroso, pois seus filmes eram a partir de lembranças. Talvez por isso, achou que este não poderia ser considerado um filme inteiro. Mas acabou sendo uma obra-prima de sua cinegrafia, junto a Amarcord.

Em sua homenagem, Arthur Kopit estreou na Broadway o musical Nine, baseado em Oito e Meio, com Raul Julia no papel principal. Traz a mesma história do filme italiano: Guido um cineasta em crise criativa que apela para as lembranças das mulheres que passaram em sua vida para tentar fazer a trama. A diferença é o ritmo, com músicas criadas para a nova história e o nome, Nine, afinal, ele não era apenas meio filme.

FelliniA adaptação para o cinema dessa história me lembra uma frase de Godard: "Tenho pena do cinema francês por não ter dinheiro e tenho pena do cinema norte-americano por não ter idéias". Claro que o fundador da nouvelle vague tinha muito preconceito em relação a Hollywood, mas a enxurrada de adaptações e refilmagens demonstram que o cinema está cada vez menos criativo. Ainda assim, por mais paradoxal que possa parecer, Nine é um bom filme. Pelo menos, é bem produzido, com grandes interpretações e faz jus aos questionamentos que Fellini propôs em 1963. Afinal, qual a função e o sentido do cinema?

Há em Oito e Meio, várias cutucações ao movimento neo-realista como a frase de Guido "...estou cheio desses filmes em que nada acontecem..." Ou o formato narrativo que flerta com o surrealismo, escandalizando os neo-realistas que viam em um filme a essência da vida. A ponto do termo "felliniano", virar uma gíria na Itália que significa pessoas bizarras e imagens circenses. Filme é sonho, gritava Fellini com sua obra. É interessante ver o Guido de Daniel Day Lewis dizer em Nine que acha ser o palhaço daquele circo. Uma referência não apenas a isso, como a cena final de Oito e Meio, feita em um picadeiro ao ar livre.

Kate Hudson e Daniel Day Lewis em Nine Em Oito e Meio, e em Nine por consequência, Fellini recorre a sua infância em Rimini e outros detalhes, mostra a lembrança dolorosa dos pais, a Igreja punitiva e opressiva, e a, ao mesmo tempo, prazerosa e incômoda presença da mulher. O musical mantêm toda essa essência, a mistura surrealista entre realidade e sonho, além da metalinguagem explícita.

Daniel Day Lewis está esplêndido no papel que foi de Mastroiani, dando a densidade exata para o cineasta em crise, e ainda cantando muito bem. As mulheres são um show a parte, destaco apenas Marion Cotillard que desde Piaf não nos brindava com uma interpretação tão intensa. Quanto às demais, deixo a dica de um post interessante que este já está ficando imenso.

Por ser bem produzido, ter uma história interessante, um roteiro bem feito e interpretações tão boas fica o questionamento de o porquê Nine ter sido tão excluído do Oscar. Apenas Penélope Cruz, que parece ter virado a nova queridinha da América, está na lista de indicados. Talvez seja um prenúncio da morte definitiva dos musicais. Tiveram sua época áurea nas décadas de 50/60, um revival na década de 80 e poucos contemporâneos de sucesso. Interessante é perceber que hoje não cabe mais ninguém sair cantando e dançando no meio de uma cena. Assim como Chicago, Nine só utiliza músicas na imaginação de um personagem. Será que não há mais espaço para musicais em Hollywood? Fica a questão para pensar...

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JCVD

Jean Claude Van Damme Quem vê filmes da Sessão da Tarde como O Grande Dragão Branco, Kickboxer, Soldado Universal ou Timecop nunca espera um bom filme interpretado por Van Damme. E eu escolhi os melhores, nem querendo lembrar de coisas como Cyborg ou Street Fighter. Alguns podem lembrar de O Alvo, primeiro filme dirigido por John Woo e que tem uma aceitação melhor pela crítica. Ainda assim, é um filme de ação, considerado menor e onde a capacidade de interpretação de um ator é quase nenhuma. Por isso, JCVD é uma grande surpresa em todos os sentidos. Primeiro, não é um filme de ação, mas um drama com grande tensão emocional. Depois, Van Damme interpreta a ele mesmo em uma biografia satirizada com uma carga dramática impressionante. Por fim, o longa expõe sem dó toda a insatisfação do ator com Hollywood, seus problemas com as drogas, fazendo piadas com críticas veladas a filmes bobos de ação e ao "ator" Steven Seagal.

JCVDO mote da história é totalmente surreal, Van Damme precisa de dinheiro para pagar seus advogados que trabalham no caso da custódia de sua filha. Ao entrar no banco, é envolvido em um assalto com reféns que tem reviravoltas surpreendentes. A narrativa é montada de uma forma não completamente linear, fazendo paralelos interessantes e nos revelando aos poucos o que realmente aconteceu dentro da agência. A direção é crua, realista, com bastante câmera na mão, o que ajuda na sensação quase documental. Há também muita metalinguagem, com Van Damme em cena e na real, reforçada pelo fanatismo dos belgas pelo ator.

Próximo ao fim do filme, Van Damme nos brinda com um monólogo sincero e sem censuras, onde expõe toda a sua trajetória e dificuldades em Hollywood. Um desabafo incômodo, quase uma resposta aos críticos que o vêem como um lutador fútil. Aqui, e na cena final, Van Damme mostra que é capaz de passar emoção verdadeira. Toda essa mistura gera, no entanto, uma dúvida sobre o que é verdade e o que é ficção em JCVD, e, principalmente, o que Van Damme queria passar de fato com esse filme. Fica para nós a insatisfação com o sistema de produção americano e a ingratidão de algumas pessoas como John Woo, que é citado várias vezes como tendo sido levado pelo ator para Hollywood e que depois o esqueceu. Além do próprio Steven Seagal, alvo de várias piadas durante a projeção. De qualquer forma, Van Damme conseguiu chamar a atenção e fazer um bom filme, onde suas habilidades com as pernas não são o foco principal.

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Dúvida

Dúvida A dúvida é um sentimento angustiante e John Patrick Shanley trata do assunto de uma forma esplêndida nesse longa. Tudo é implantado de uma forma bem pensada, a começar pelo sermão em uma missa e terminando com o último diálogo entre Meryl Streep e Amy Adams. Aliás, a forma como a personagem de Streep é revelada é um show a parte. Com o sermão sendo proferido, vemos apenas uma freira de costas observando a platéia. Ela se levanta, dá um tapa em um garoto que está conversando e se dirige a outro que dorme. Só então, a câmera gira e vemos seu rosto. O suspense já conduz ao medo e obediência que aquela senhora inspira em todo o colégio desde a primeira cena.

A Irmã Aloysius Beauvier é o que podemos chamar de mão-de-ferro. Basta a sua presença para que todos se ajeitem e obedeçam cegamente. Paralelos interessantes são feitos como a refeição dos padres, conversando e rindo, em contraposição com as freiras que comem em silêncio quase mortal. Em outros momentos, ela ensina a novata Irmã James a colocar o quadro de um papa na parede, assim ela pode ver os alunos pelo reflexo enquanto escreve na lousa. "Se os alunos pensarem que você tem olhos nas costas, têm mais medo e respeito".

Meryl Streep em Dúvida Tudo piora quando a escola recebe o primeiro aluno negro e este é "adotado" pelo simpático padre Brendan Flynn. Bastam alguns pequenos acontecimentos para Irmã Aloysius acreditar que a conduta do padre não é bem intencionada e começar uma caça para desmascará-lo e tirá-lo daquela paróquia. A dúvida está instalada e o jogo psicológico é forte a ponto de, em uma única sequência de 12 minutos, Viola Davis, que interpreta a mãe do garoto, conseguir emocionar a todos chegando a uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

O clima tenso e sombrio é reforçado pela fotografia sempre lavada e escura, além da câmera instigante que parece procurar as respostas em imagens escondidas. Meryl Streep, como sempre, está fantástica. Sua imagem chega a causar medo, contrastando com a de Amy Adams, que traz uma ingenuidade a sua Irmã James. Já Philip Seymour Hoffman consegue reforçar em sua interpretação a dúvida do filme, já que por vezes achamos o padre Flynn um bom homem e por outras um cínico. Tudo isso faz de Dúvida um excelente filme que merece todo o destaque.

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Avatar e Guerra ao Terror na disputa do Oscar

Saiu a tão aguardada lista e, como era esperado, Avatar e Guerra ao Terror lideram com nove indicações cada, seguidos por Bastardos Inglórios que aparece em sete categorias. Com a novidade de dez indicados a melhor filme, a academia pode fazer uma homenagem a obras que talvez nem fossem citadas, o que é bastante interessante. Proporcionando também este ano, acontecer de um filme de animação ser indicado na categoria principal, o caso de UP. Sem muitas novidades, destaco aqui a alegria de ver O Segredo de Kells na categoria de melhor filme animação, o longa passou pelo Brasil apenas na mostra especial infantil do Cinemark, e apesar de saber que não tem muitas chances, fico feliz de vê-lo sendo lembrado.



Melhor filme
"Avatar"
"Um Sonho Possível"
"Distrito 9"
"Educação"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Preciosa"
"Um Homem Sério"
"Up - Altas Aventuras"
"Amor Sem Escalas"

Melhor diretor
James Cameron, "Avatar"
Kathryn Bigelow, "Guerra ao Terror"
Quentin Tarantino, "Bastardos Inglórios"
Lee Daniels, "Preciosa"
Jason Reitman, "Amor Sem Escalas"

Melhor ator
Jeff Bridges, "Crazy Heart"
George Clooney, "Amor Sem Escalas"
Colin Firth, "A Single Man"
Morgan Freeman, "Invictus"
Jeremy Rennet, "Guerra ao Terror"

Melhor atriz
Sandra Bullock, "Um Sonho Possível"
Helen Mirren, "The Last Station"
Carey Mulligan, "Educação"
Gabourey Sidibe, "Preciosa"
Meryl Streep, "Julie & Julia"

Melhor ator coadjuvante
Matt Damon, "Invictus"
Woody Harrelson, "O Mensageiro"
Christopher Plummer, "The Last Station"
Stanley Tucci, "Um Olhar do Paraíso"
Christoph Waltz, "Bastardos Inglórios"

Melhor atriz coadjuvante
Penelope Cruz, "Nine"
Vera Farmiga, "Amor Sem Escalas"
Maggie Gyllenhaal, "Crazy Heart"
Anna Kendrick, "Amor Sem Escalas"
Mo'Nique, "Preciosa"

Melhor animação
"O Fantástico Sr. Raposo"
"Coraline e o Mundo Secreto"
"Up - Altas Aventuras"
"A Princesa e o Sapo"
"The Secret of Kells"

Melhor roteiro original
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"O Mensageiro"
"Um Homem Sério"
"Up - Altas Aventuras"

Melhor roteiro adaptado
"Distrito 9"
"Educação"
"In the Loop"
"Preciosa"
"Amor Sem Escalas"

Melhor filme estrangeiro
"A Teta Assustada", Peru
"A Fita Branca", Alemanha
"O Profeta", França
"Ajami", Israel
"O Segredo de Seus Olhos", Argentina

Melhor direção de arte
"Avatar"
"O Imaginário do Dr. Parnassus"
"Nine"
"Sherlock Holmes"
"A Jovem Victoria"

Melhor fotografia
"Avatar"
"Harry Potter e o Enigma do Príncipe"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"A Fita Branca"

Melhor figurino
"Brilho de uma Paixão"
"Coco Antes de Chanel"
"O Imaginário do Dr. Parnassus"
"Nine"
"A Jovem Victoria"

Melhor edição
"Avatar"
"Distrito 9"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Preciosa"

Melhor maquiagem
"Il Divo"
"Star Trek"
"A Jovem Victoria"

Melhor trilha sonora
"Avatar"
"O Fantástico Sr. Raposo"
"Guerra ao Terror"
"Sherlock Holmes"
"Up - Altas Aventuras"

Melhor canção original
"A Princesa e o Sapo", com "Almost There"
"A Princesa e o Sapo", com "Down in New Orleans"
"Paris 36", com "Loin de Paname"
"Nine", com "Take It All"
"Crazy Heart", com "The Weary Kind"

Melhor documentário de longa-metragem
"Burma VJ"
"The Cove"
"Food, Inc"
"The Most Dangerous Man in America"
"Which Way Home"

Melhor documentário de curta-metragem
"China's Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province"
"The Last Campaign of Governor Booth Dardner"
"Music by Prudence"
"Rabbit à la Berlin"

Melhor curta-metragem de animação
"French Roast"
"Granny O'Grimm's Sleeping Beauty"
"The Lady and the Reaper"
"Logorama"
"A Matter of Loaf and Death"

Melhor curta-metragem
"The Door"
"Instead of Abracadabra"
"Kavi"
"Miracle Fish"
"The New Tenants"

Melhor edição de som
"Avatar"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Star Trek"
"Up - Altas Aventuras"

Melhor mixagem de som
"Avatar"
"Guerra ao Terror"
"Bastardos Inglórios"
"Star Trek"
"Transformers - A Vingança dos Derrotados"

Melhores efeitos visuais
"Avatar"
"Distrito 9"
"Star Trek"

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Preciosa

PreciosaPreciosa é aquele tipo de filme que dói na alma. Não dá para vê-lo por diversão, pois o sofrimento é exposto de uma forma crua e real. Uma garota pobre, abusada pelo próprio pai com quem já teve uma filha e espera o seu segundo, tendo apenas 16 anos, e o pior, vivendo com uma mãe que a acusa por ter lhe roubado "o homem"... Mas, nem tudo são farpas, por ser boa em matemática, a garota é enviada para uma escola especial e lá conhece pessoas que podem lhe ajudar a encontrar um pouco de alegria em seus dias de dor. Lee Daniels conduz a direção de forma instigante, que, apesar de um roteiro simplista, prende a nossa atenção.

O forte de Preciosa está mesmo nas atuações. A começar por Mo’nique que entrega uma emoção tão verdadeira a mãe de Precious a ponto de termos verdadeiro asco pela personagem. Dá vontade de entrar na tela e dar uns tabefes naquela mãe. Acho que foi por isso que Mariah Carey conseguiu uma interpretação tão verdadeira com sua assistente social, ouvir aquela mulher dizer aquelas barbaridades só poderia resultar em uma expressão de horror e incredulidade. Paula Patton também está muito bem como a professora da escola especial para onde a protagonista é enviada. E não podemos esquecer da participação simpática de Lenny Kravitz como um enfermeiro. Quanto a Gabourey Sidibe, faz sua estreia com o pé direito, nos cativando em pequenos gestos como a moça obesa e sofrida, mas que busca a felicidade. As cenas fantasiosas dela são um show a parte.

Mo'nique em Preciosa Aliás, esses momentos de sonho dão um refresco na trama, dosando bem as emoções dos espectadores. Pena que não continua assim até o final. Preciosa é uma obra pé no chão, mas sem perder a leveza da esperança de dias melhores. Confesso que esperava mais depois de tanta propaganda positiva, ainda assim, emocionou. Um bom filme que se não levar o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Mo'nique vai ser uma tremenda injustiça.

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