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Elio
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Quando eu penso em Elio, rapidamente o que me vem à mente é a intensidade com que um filme aparentemente infantil tenta ser algo maior. Não no sentido grandioso de efeitos ou reviravoltas narrativas, mas no modo como explora temas universalmente humanos como solidão, pertencimento e a busca por significado. Isso é algo que, nos momentos mais fortes de sua narrativa, ecoa com sinceridade, mesmo que o caminho até ali jamais se afaste de fórmulas que já vimos exaustivamente em animações contemporâneas.
A história gira em torno de Elio Solis, uma criança marcada pela perda dos pais e cuja paixão pelo espaço é, na verdade, um modo simbólico de tentar preencher o vazio deixado por essa ausência. Isso é expresso de forma clara na maneira como ele escreve mensagens na areia, implorando por um contato alienígena. Um gesto que funciona quase como uma metáfora para qualquer pessoa que já se sentiu invisível ou fora do lugar. A Pixar sempre se esforçou para falar com profundidade sobre sentimentos complexos, mas aqui essa intenção às vezes sobra em sentimentalismo e falta em ousadia.
Visualmente, Elio é deslumbrante. O design do Comuniverso e de suas criaturas é vibrante, quase como se tivesse materializado criaturas saídas de sonhos colecionados pela imaginação infantil. Cada planeta ou esfera alienígena carrega detalhes ricos em cor e textura, criando um universo que diverte o olhar e recompõe a ideia de que animação pode ser um espaço de pura invenção visual. Essa estética empurra a narrativa para fora da Terra com uma energia contagiante, mas paradoxalmente também acentua como a história em si não explora tanto esses mundos quanto poderia. Muitas vezes, o visual impressionante serve mais como pano de fundo do que como elemento narrativo integrado.
A direção vocal é outro ponto que merece atenção. Yonas Kibreab, na voz de Elio, constrói uma performance que não ignora a complexidade interior de um garoto lidando com perda e desejo de aceitação. Remy Edgerly, como Glordon, oferece aquele tipo de presença que poderia facilmente cair em estereótipo, mas que aqui encontra nuances suficientes para tornar a amizade entre os dois uma das poucas âncoras emocionais verdadeiras do filme. Juntos, eles encarnam não apenas a dupla improvável protagonista-coadjuvante, mas um espelho de como dois seres excluídos podem, mesmo que de forma apressada, reconstruir laços e significado.
O trabalho de animação é acompanhado por escolhas sonoras que intensificam as emoções, embora em alguns momentos eu tenha sentido que a trilha resolve onde a narrativa hesita. A música suaviza as arestas de um roteiro que, em vários trechos, opta por caminhos fáceis em vez de ousar. Isso é particularmente evidente no terceiro ato, onde a conclusão parece costurada com pressa, reunindo arcos emocionais e resoluções de uma forma que abraça mais o conforto narrativo do que o impacto profundo.
E por falar em narrativa, é impossível ignorar a sensação de déjà vu: temas de aceitação, mundos estranhos que espelham as dores humanas, jornadas galácticas que são, no fim, metáforas de crescimento interno. Tudo já visto em filmes anteriores da casa. O que Elio tenta, e em muitos momentos consegue, é modernizar esse repertório emocional com um toque de humor e uma estética que dialoga tanto com o universo infantil quanto com espectadores adultos que procuram ressonância emocional. Ainda assim, isso não invalida que o roteiro tropece em sua própria familiaridade, repetindo fórmulas que lembram outros títulos sem realmente adicionar nada ao cânone emocional da Pixar.
O momento que melhor resume o valor desse filme não está nem nas paisagens estelares ou nas piadas espaciais, mas na cena em que Elio, finalmente compreendido por aqueles ao seu redor, inclusive por si mesmo, abraça sua própria vulnerabilidade. É um instante de quietude sincera em meio ao espetáculo visual, um lembrete de que o coração do filme bate mais forte quando a história olha para dentro, não para o cosmos.
No fim das contas, Elio não é uma revolução no gênero de animação, nem uma obra-prima que reposicione a Pixar no panteão de suas glórias passadas. Mas é um filme que tenta, com alguma desigualdade, traduzir um sentimento universal em linguagem cinematográfica acessível e visualmente encantadora. Há falhas claras no ritmo, em coesão dramática e em ousadia narrativa, mas também há momentos de pura verdade emocional. Para um público mais jovem, especialmente aqueles que já sentiram dificuldade em se encaixar, Elio pode soar como um espelho de empatia. Para espectadores mais experientes, a beleza está tanto em seus acertos quanto, e às vezes até mais, em suas hesitações.
Elio (Elio, 2025 / Estados Unidos)
Direção: Madeline Sharafian, Domee Shi
Roteiro: Julia Cho, Mark Hammer, Mike Jones, Adrian Molina
Com: Yonas Kibreab, Zoe Saldaña, Remy Edgerly, Brad Garrett, Jameela Jamil
Duração: 99 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Elio
2026-01-29T08:30:00-03:00
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