Quem já viveu ou conviveu com a depressão sabe o quanto ela pode ser devastadora. Uma doença que tira do ser humano o principal fator: a vontade de reagir. Um novo despertar, terceiro longametragem dirigido por Jodie Foster traz, com muita inteligência e honestidade, este estado de espírito e ainda é repleto de símbolos e fatores externos que o tornam mais especial. Primeiro é quase o resgate da diretora que há dezesseis anos não conseguia emplacar seu novo trabalho. Segundo é a nova chance de Mel Gibson, que passa pelo pior momento de sua vida após escândalos com álcool, reações contra seu machismo e anti-semitismo e persona non grata em diversas produções. Mas, tudo se torna secundário ao vermos o projeto na tela. É a magia do cinema que nos faz embarcar em um mundo que vale muito mais a pena.
"Toda crítica é uma auto-biografia". Com esta frase determinista de Oscar Wilde, Kleber Mendonça Filho começa o seu filme metalinguístico. Um documentário sobre a crítica feito por um crítico / cineasta. Durante nove anos, o diretor ouviu setenta pessoas entre críticos e cineastas sobre a relação de conflito entre criador e observador. Afinal, para que serve a crítica? É benéfica? Ou apenas destrói? A crítica faz o cinema ou o cinema faz a crítica? Perguntas lançadas, opiniões diversas e muito a ser discutido.
Em época de Rio e animações computadorizadas, resgatemos, por indicação da leitora Grace Gomes, a primeira animação de Walt Disney sobre o nosso país. Ele foi produzido em 1942, totalmente à mão, fazendo parte da Política da Boa Vizinhança após Segunda Guerra Mundial, mas que, no fundo, estava divulgando o American Way of Live. Os Estados Unidos estreitaram as relações com diversos países através da arte. Saludos Amigos era um passeio pela América do Sul, onde cada curta-metragem acontecia em um país. Para o Brasil, esta animação de oito minutos chamada Aquarela do Brasil foi apenas o começo. Aqui, surge pela primeira vez o Zé Carioca, personagem malandro e cheio de ginga. Cabe ao pato Donald ser o seu anfitrião, ou melhor, o papagaio é quem mostra seu país ao famoso pato.
Os irmãos Dardenne encantaram Cannes em 2005 com A Criança. Um filme naturalista que trata de questões humanas e suas emoções de uma forma tão sensível que é impossível não se envolver e emocionar. Afinal, sabemos o quanto é difícil amadurecer e as responsabilidades que isso acarreta. Bruno e Sônia são dois representantes desse desespero que tem dentro de cada um de nós.
A história aparentemente é simples. Bruno e Sônia são dois jovens que acabam de ter um filho. Inconsequentes e sem planos para o futuro, sem empregos fixos e vivendo de golpes, eles vagam pelas ruas da Bélgica quase que brincando de casinha. Duas crianças sendo responsáveis por outra que ainda precisa de colo. Um retrato não muito incomum, há vários Brunos e Sônias por aí. Até que há uma quebra no pacto, a maternidade amadurece Sônia, no momento em que Bruno passa dos limites. Para ela, o filho Jimmy não é uma mercadoria, há um vínculo, enquanto que para ele é apenas mais um meio de se conseguir dinheiro. "Nós podemos fazer outro", Bruno chega a dizer.
É interessante reparar a forma como os Dardenne constróem seus protagonistas antes do ponto de virada. Apesar de Sônia já demonstrar um certo instinto materno, e lembrar o tempo inteiro da responsabilidade de registrar a criança, ambos são extremamente infantis. Encaram a vida de uma forma inconsequente. As brincadeiras no lago com o dinheiro que vem de um golpe de Bruno com um grupo de crianças são um exemplo. Aliás, essas crianças sim, possuem uma idade mental condizente, até mais maduras do que Bruno. Em outra cena, no carro, Sônia provoca Bruno com brincadeiras pirracentas mesmo este estando no volante. Detalhe para a música Danúbio Azul tocando no rádio do veículo. Dá mais força à cena. A música no filme entra sempre assim, de forma diegética, não temos trilha sonora extra.
Aliás, A Criança poderia ser facilmente enquadrada no movimento Dogma 95, vide a fotografia sem nenhum tratamento extra. A imagem é crua, real, nos dando a sensação exata de algo verdadeiro. O ritmo do filme é lento, sem nunca se tornar chato. Caminhamos com Bruno pelas ruas, enquanto ele empurra o carrinho de bebê, ou mais tarde quando foge de agressores. A câmera é uma testemunha ocular bastante eficaz, nos envolvendo sempre pelo ponto de vista do protagonista. Isto gera uma ansiedade, não temos o controle de tudo, da mesma forma que ele não tem. Em determinada cena, quando vai destrocar o bebê, a câmera mostra apenas o que Bruno vê, a insegurança de se ele será enganado é imensa. Assim como quando ele e o garoto se escondem da polícia, não temos como ver se alguém se aproxima.
Sem querer teorizar muitos sobre o título, os Dardenne parecem deixar claro quem é a criança do título, já que Bruno é sempre o foco. Mesmo quando está com o bebê, este pouco aparece, está sempre coberto por roupas, lençois e carrinho. Se não fossem as raras cenas em que seu rosto aparece, diria que nem mesmo contrataram um bebezinho para as filmagens. Isto reforça a idéia de que Jimmy não está em questão em momento nenhum, ele é apenas o meio para conhecermos e acompanharmos a trajetória de Bruno. Ele é a verdadeira criança que precisa crescer. Nem mesmo Sônia, que no início demonstra ser parecida com seu parceiro, no momento da quebra entre o casal, ela percebe que a vida não pode ser tão inconsequente. Bruno foi longe demais e Sônia não pode perdoá-lo. Sendo assim, ela cresce, as brincadeiras deixam de ter sentido ou mesmo graça.
Só Bruno parece não perceber e continua vagando, como se pudesse levar a vida sempre assim. Mas, nem tudo tem jeito com pequenos golpes. Um dia ele terá que aprender. A Criança é um filme raro, onde a vida pula em nossa tela sem máscaras, de uma forma envolvente e emocionante. O final deste filme foi um dos fechamentos mais fantásticos que já vi, sem resoluções mirabolantes. Tudo se encaminha de uma forma harmônica. Uma verdadeira obra-prima que merece ser vista.
A Criança (L'Enfant: 2005 /Bélgica, França)
Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne
Com: Jérémie Renier, Olivier Gourmet, Débora François, Jérémie Segard.
Duração: 95 min
Mais uma semana chegando ao fim. Esta começou com o anúncio dos vencedores de Cannes. Entre aplausos e vaias, Árvore da Vida levou a Palma de Ouro aumentando a expectativa de sua estreia. O filme de Terence Malick deve passar no Brasil a partir de 24 de junho. Uma obra instigante que a sinopse apresenta como uma história de relação entre pai, filhos e a perda de inocência. Seu trailer pouco explica e nos deixa com a curiosidade de conhecer melhor o que tem a nos contar.
Se você gostou do filme Se Beber não Case, provavelmente vai se divertir muito com a sua continuação. Afinal, é quase um remake da primeira aventura. O formato é exatamente igual, um amigo vai casar, eles bebem para comemorar e acordam sem a menor idéia do que aconteceu. Um deles sumiu e precisam seguir os passos para tentar entender o que houve e onde estão. Mas, apesar da repetição, as piadas funcionam perfeitamente.
Aproveitando a estreia de Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, a Rede Cinépolis tem uma promoção, na compra de pipoca grande, com refrigerante 700ml e 1 mentos, vem uma miniatura do filme de brinde. E todos vocês já conhecem o Cinépolis? Vamos sortear ingressos para qualquer filme da rede, vejam abaixo.
Hoje é o dia do Orgulho Nerd. O termo surgiu em 1950 no livro If I Ran the Zoo, onde o escritor Theodor Seuss o descrevia como um bichinho esquisito, com cabelo desgrenhado e camiseta surrada. Por décadas foi sinônimo de pessoas sem traquejo social, que tinham prazer em estudar e eram vistos como perdedores pela maioria dos jovens. Mas, como tudo muda, os avanços da tecnologia trouxeram os Nerds para o topo, afinal quem entende mais de computadores que eles? Vários filmes de ficção científica se tornaram moda e ser Nerd passou a ser cool. Para homenagear o dia, resolvi resgatar aqui a Saga Star Wars. Afinal, este dia foi escolhido por um motivo: em 25 de maio de 1977 chegava aos cinemas o filme Guerra nas Estrelas, mais tarde rebatizado de Episódio IV, uma nova esperança. Só por curiosidade, hoje também é o Dia da Toalha, objeto essencial para outro livro / filme símbolo nerd: O guia do mochileiro das galáxias.
"Nós artistas temos duas funções: usamos a vida para criar a arte e a arte para criticar a vida."
Esta frase dita em determinado momento do filme Assassinato apesar de não servir para a resolução do mistério passa a essência da obra que utiliza o efeito peça dentro da peça em uma história aparentemente banal. Reforço, só aparentente. Um dos poucos filmes de Hitchcock com artifício whodunits, contração da pergunta "who has done it?", que literalmente seria "quem fez isso", vulgo quem matou?. Assassinato é baseado na peça Enter, Sir John, de Clemence Dane e Helen Simpson, trazendo muitas inovações para a linguagem cinematográfica.
Ao falar de cinema nacional, parece que nos centramos em Selton Mello, Wagner Moura e Lázaro Ramos. Grandes atores, é verdade, mas que estão longe de serem os únicos. Essa semana ouvi um conhecido se referir ao ator pernambucano Irandhir Santos como Fraga, seu personagem em Tropa de Elite 2. Isso chamou a minha atenção para a necessidade de destaque deste grande ator do nosso cenário recente. Por isso, resolvi falar um pouco aqui de sua carreira. Conhecido em Pernambuco por sua atuação no teatro, destacou-se em cenário nacional em 2006 com sua participação em Baixio das Bestas. Por este filme levou o Candango de melhor ator coadjuvante, o que lhe deu a possibilidade de um destaque maior no filme de José Joffily, no ano seguinte. Ainda sem interpretar um protagonista, tem quatro filmes em edição (fonte), incluindo um filme dirigido pelo cantor e compositor Alceu Valença Luneta do Tempo. Destaco abaixo seus trabalhos mais recentes de destaque no cinema.
Olhos Azuis (2007) - Direção de José Joffily Nonato - Aqui Irandhir não é o protagonista, mas é o motivo do filme. Nonato é um imigrante brasileiro nos Estados Unidos que vira alvo de Marshall, chefe de departamento de imigração do aeroporto JFK. Sua participação na tela é pequena, mas decisiva. Irandhir Santos sofre com o interrogatório cruel, revida, fica emocionado e nos emociona em seu drama. Não sabemos se é real ou não a história que conta, mas sem dúvidas é um vencedor que só queria dar uma vida melhor a sua mãe e sua filha. Vítima de uma estrutura rígida, Nonato pode ter comprado seu visto, mas se o tinha, não poderia ser humilhado da forma que foi por Marshall. É um filme forte e a atuação de Irandhir Santos é mesmo o maior destaque de toda a projeção.
Besouro (2008)- Direção de João Daniel Tikhomiroff Noca de Antônia - Quando os primeiros trailers do filme Besouro surgiram, a expectativa foi grande. Belas imagens, promessa de lutas e envolvimento em uma história de uma lenda brasileira. Quando a projeção começou, a frustração só não foi maior pela presença de Irandhir Santos, pelo menos para mim. Ainda não conhecia Olhos Azuis e pouco lembrava dele em Baixio das Bestas. Foi em Besouro que o ator chamou a minha atenção. Noca de Antônia se destacava diante dos atores principiantes com um brilho próprio. Não era o único destaque, já que Flavio Rocha também teve ótima atuação no filme, mas foi o feitor mesmo que roubou a cena. E salvou o filme.
Quincas Berro D'Água (2009) - Direção de Sérgio Machado Cabo Martin - Após Besouro, parecia mesmo que Irandhir Santos ia virar baiano. Assim entrou pro grupo de Quincas e desfilou talento pelas ruas do Pelourinho como o Cabo Martin. A cabeça pensante dos quatro amigos que levam o morto para sua última noitada nos faz rir e emocionar em cena. Irandhir brinca em cena demonstrando que também pode fazer muito bem papéis leves.
Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo (2009) - Direção de Marcelo Gomes e Karim Ainouz Zé Renato - Um bom ator tem que nos convencer em cena e também fora dela. Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo é um filme atípico feito com colagem de cenas diversas, gravações amadoras. Apenas a voz de Irandhir Santos é ouvida, ele nunca está na frente da tela. O geólogo que viaja pelo nordeste analisando o projeto de transposição de um rio (provavelmente o São Francisco) comenta o que vê na estrada nos envolvendo em seus pensamentos. Vamos junto com ele naquela viagem estranha de auto-descobrimento. Ele fala muito com a tal morena de que sente falta, mas fala também conosco. Tudo isso com uma voz firme, poética e emocionante.
Tropa de Elite 2 (2010) - Direção de José Padilha Diogo Fraga - Finalmente o opositor do Capitão Nascimento. Em Tropa de Elite 2 Irandhir Santos é a voz daqueles que ficaram horrorizados com os ideiais do personagem de Wagner Moura no primeiro filme. Defensor dos direitos humanos, Fraga luta para que mesmo os presos possam ser respeitados e compreendidos. Antagonista do filme, mas verdadeiro herói para muitos, sua interpretação continua impressionando. Ele consegue mostrar o porquê de estar se destacando no cenário cinematográfico há tanto tempo, já tendo colecionado vários prêmios a ponto de ser homenageado em janeiro deste ano com troféu "Barroco", na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Roteiro inexistente, atuações pífias e uma sensação de que tudo está ali apenas para justificar a ação nas ruas. Talvez vocês reclamem que é isso mesmo, é um filme de gênero e que Velozes e Furiosos 5 é um bom entretenimento. Concordo que há uma capacidade técnica de anos de indústria que não farão nunca um filme com orçamento milionário e uma marca de franquia forte ser um fracasso completo. Mas, facilmente podemos comparar seu roteiro ao brasileiro Federal, tão criticado ano passado, por exemplo. É daqueles filmes sem pé nem cabeça. Então, desliguem o cérebro e vamos lá.
Publicado por Oscar Wilde em 1890, O Retrato de Dorian Gray causou grande polêmica na Inglaterra pelo seu teor homoerótico e pela crítica a uma juventude decadente da era vitoriana. Lembro ainda da adaptação do livro de 1945 dirigida por Albert Lewin, ainda em preto e branco, valorizando o suspense, a tensão mística do quadro que nunca era mostrado. Aí, chega aos cinemas a versão de Oliver Parker, uma adaptação contemporânea, que ao mesmo tempo que mostra com mais detalhes as orgias sexuais de Dorian, o torna mais humano, um garoto puro, corrompido e digno de pena.
Cannes tomou conta dos assuntos da semana. O Festival mais charmoso do cinema não vive mais apenas de obras de arte. Rendendo-se aos blockbusters, tivemos estreias de Piratas do Caribe 4 e Kung Fu Panda 2. Nenhum causou grandes alvoroços. Entre os queridinhos do Festival, os irmãos Dardenne saem na frente com "The kid with a bike", favorito para muitos. Mas, como a imprensa adora uma polêmica, a bola da vez foi o comentário irônico de Lars Von Trier na entrevista coletiva para seu filme Melancholia. As manchetes ampliaram as declarações em que Lars Von Trier afirma ser nazista. O alemão usou do seu já conhecido humor negro para fazer uma brincadeira de mau gosto com sua origem e em momento nenhum afirmou ser anti-semita ou a favor do holocausto. Disse que compreendia Hitler: "Eu compreendo Hitler. Acho que ele fez algumas coisas erradas, sim, com certeza, mas eu consigo vê-lo sentado em seu bunker no final" (fonte UOL) e ainda completou: "Estou apenas dizendo", tentou explicar Von Trier, "que acho que entendo este homem. Ele não é o que você poderia chamar de um cara legal, mas sim, eu entendo muito a seu respeito, e sinto por ele um pouco de compaixão, sim. Mas vá lá, eu não sou a favor da Segunda Guerra Mundial. E não sou contra os judeus". Qualquer um que já viu uma entrevista de Von Trier, sabe que polêmicas são o seu forte. Foi ironia, provocação, não algo a ser levado a sério.
Quatro anos após o término da trilogia, os fãs já tinha perdido as esperanças de ver Jack Sparrow novamente nas telas. Mas, eis que ele surge, com os mesmos trejeitos, personalidade forte e planos mirabolantes. Um adorável trapaceiro. Johnny Depp não decepciona e resgata com a mesma força o personagem que imortalizou. Apenas algo estranho em sua voz, mais embolada. Continua, no entanto, com todos os atributos que encantaram o público e agora acompanhado. Angélica, vivida por Penelope Cruz, constrói uma ótima química com Depp. O problema é que faltou história para justificar a união dos dois e todo o resto.
Apesar da mudança de diretor, a franquia continuou com o roteiro de Ted Elliott e Terry Rossio, este fato torna ainda mais esquisito a construção do filme ter se modificado tanto. Tirando o casal William Turner e Elizabeth Swann a história ficou centrada em Jack Sparrow, para alegria dos fãs. Mas, isto acaba tirando um pouco do ritmo da saga que sempre misturava histórias paralelas, principalmente nas cenas de ação. Estamos mais colados no protagonista mesmo tendo novos e antigos personagens com suas próprias trajetórias a serem resolvidas. O fato é que o roteiro de Piratas do Caribe 4 se resume a: Jack Sparrow, Angelica, Capitão Barbossa, Barba Negra, um missionário, ingleses e espanhóis, cada um por seu motivo, em busca da lendária Fonte da Juventude. Com duas horas e meia, esse argumento se arrasta em várias artimanhas para gerar pontos de virada, onde poucas cenas se destacam.
Rob Marshall, que substitui o antigo diretor Gore Verbinski, imprime sua marca. O diretor de fotografia é o mesmo e a trilha continua assinada por Hans Zimmer, o que nos faz supor que todas as mudanças no tom da imagem, nas escolhas de alguns enquadramentos e forma mais pomposa de introduzir e utilizar a música partam do diretor de Chicago e Memórias de uma Gueixa. A falta de histórias paralelas tenta ser suprida por Marshall com planos muito mais curtos, gerando uma dinâmica na montagem do filme que lhe dão a aparência de mais rápido. Mas, que não surte o mesmo efeito. Apesar de um bom início, o filme perde o fôlego e se torna cansativo em muitos momentos. Falta aquela sensação que tudo acontecendo ao mesmo tempo. A urgência de que o mundo pode acabar a qualquer momento, mas Jack Sparrow sempre vai tirar um coelho da cartola.
As cenas de ação, principal preocupação dos fãs, não são muitas, nem antológicas como algumas dos primeiros filmes, mas até cumprem um papel de envolver e entreter. O problema é saber onde parar. A cena das sereias, mesmo, causa algum entusiasmo. É bem construída, com bons efeitos especiais e uma organização de cena interessante. Porém, é longa demais. A sensação é de que tudo vai sendo arrastado na intenção de ganhar alguns minutos e preencher o filme que poderia ser resumido em bem menos tempo. Essa falta de dimensão permeia todo o filme, fazendo com que roteiro e direção pareçam não ter chegado a um acordo do que deveria acontecer na tela. Há também um grande hiato entre o terceiro e quarto filme. Deixamos os personagens em alto mar, Barbossa com a tripulação do Pérola Negra descobrindo que foi roubado por Sparrow. E este, em um barquinho com ar de que vai desvendar o mistério daquele lugar. O salto não é estimado, mas é grande, talvez os dez anos da cena pós créditos do terceiro, apesar de não ter relação com o resto da história. O fato é que Barbossa perdeu a perna, o navio e faz parte da guarda inglesa. Enquanto Sparrow tem que salvar Gibbs da forca e enfrentar novos inimigos.
Ainda assim, o início é bem construído. É impagável ver Jack Sparrow fingindo ser um juiz ou fugindo da guarda inglesa pelo teto, sem perder a rosquinha doce que estava de olho. A forma como Penélope Cruz entra em cena também é interessante e, apesar de soar como uma intrusão na história um personagem do passado de que nunca tínhamos ouvido falar, não deixa de funcionar. Reforça um pouco a personalidade de Sparrow e gera cenas engraçadas. Era preciso um ar feminino em um mundo tão masculino como o dos Piratas. Mas, em alto mar a coisa perde o rumo. Quando embarcamos no navio do lendário Barba Negra, que também não tinha sido citado em outros filmes, falta sentido e falta ritmo. É mais do mesmo, nada que construa uma relação ação / comédia característica da série. Nem a presença de um missionário amarrado no mastro ajuda a nos manter interessados pela trama em alto mar.
Na ilha, a busca se torna ainda mais cansativa. Ainda mais com a presença da sereia prisioneira e o interesse, nem tão cristão, do missionário por ela. Penélope Cruz é outra que se torna peso morto, perdendo totalmente a graça inicial da imitação de Sparrow. Vamos acompanhando a caravana rezando para que a fonte apareça logo, pois cada cena parece se arrastar ao clímax. Ainda assim, há um clima de curiosidade e apreço pelo personagem de Johnny Depp que não nos deixa perder o interesse pelo filme. Por mais contraditório que seja. É um blockbuster que se sustenta pelo carisma de seu protagonista. Estamos lá para vê-lo. E mesmo que não esteja tão inspirado, vemos pulando em cachoeira, saltando de coqueiros, subindo literalmente nas paredes, ziguezagueando em carroças e realizando façanhas inimagináveis. Não podemos exigir muito mais dele.O 3D também não tem nada demais, uma certa profundidade e duas espadas quase em nossa frente. Ajuda mesmo é a deixar a fotografia ainda mais escura.
Não podemos exigir perfeição de todos os filmes que assistimos, nem cobrar o que ele não pode nos dar. Piratas do Caribe 4 é um filme desnecessário, é verdade. A história se fechou muito bem no terceiro longametragem. Aliás, já tinha se bastado no primeiro. Toda tentativa de revivê-lo vai sempre soar apenas como a Disney querendo tirar mais uma lasquinha de sua salvadora franquia. É confuso, pouco inspirado e por vezes, entediante. Mas, ainda assim, vai ao encontro dos anseios dos fãs que querem ver sempre Jack Sparrow nas telas. E quem sou eu para lhes negar isso?
P.S. Não esqueçam que tem uma cena pós-créditos, seguindo a tradição da franquia.
Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides: 2011 / EUA)
Direção: Rob Marshall
Roteiro: Ted Elliott e Terry Rossio
Com: Johnny Depp, Penélope Cruz, Geoffrey Rush, Ian McShane
Duração: 141 min.
Depois de passear o mundo, Velozes e Furiosos chega ao Rio de Janeiro no quinto filme da série. E você pode conferir o filme, participando da promoção. Veja as regras abaixo:
Matt Damon e Emily Blunt irão lutar contra Agentes do Destino para ficar juntos no novo filme de George Nolfi. E você? O que faria para ver esse filme? Participe da promoção abaixo.
Em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica" Walter Benjamin discute o valor da cópia de uma obra. Aliás, a discussão que serve de ponto de partida para o filme Cópia Fiel, do iraniano Abbas Kiarostami, é uma das bases da teoria da Pós-Modernidade onde a busca pela idéia original parece não existir mais, tudo é uma recriação de algo que já existe. Mas, como nem a teoria da Pós-Modernidade é completamente aceita, já está até ultrapassada em muitos pontos, a discussão de original e reprodução ainda rende muito pano para manga.
O noivo da minha melhor amiga, filme de Luke Greenfield é uma comédia romântica baseado no romance homônimo de Emily Giffin. Quer um par de ingressos para esse filme? Veja abaixo.
Não é aniversário do blog, nem da equipe, mas estamos próximos à marca de mil seguidores no Twitter, por isso, resolvemos fazer uma festa promoção para vocês. Primeiro, como forma de agradecer a todos que já nos seguem, participam com comentários, RTs e nas promoções. Depois, para incentivar e manter novos seguidores. Essa é uma promoção sem prazos, quem vai definir são vocês.
"Sob o Domínio do Mal", um desavisado pode até ter uma expectativa errada em relação a esse filme devido à versão portuguesa do título. Mas, The Manchurian Candidate é um ótimo thriller político que soube se atualizar e mostrar que, em qualquer época, estamos envolvidos em conspirações, guerras e medo de um cataclisma. A história baseada no livro de Richard Condon, que teve sua primeira versão em 1962, ganhou nova roupagem em 2004. Apesar da pouca repercussão, continuou sendo um bom filme.
A trama continua praticamente a mesma. Um soldado começa a ter sonhos estranhos que põem em dúvida o que realmente aconteceu com seu batalhão em uma guerra em que um soldado voltou condecorado e agora participa de uma rede conspiratória para tomar o comando do país. A diferença é que, em 62, Frank Sinatra voltava da Guerra da Coréia, e como estávamos em plena Guerra Fria, a tal conspiração era de um grupo de comunistas. Já em 2004, Denzel Washington retorna da Guerra do Golfo e o grupo é de especuladores que brigam pelas eleições e com isso o poder de decidir quais as políticas externas adotadas pelos Estados Unidos. Na época, caiu como uma luva na discussão do Governo Bush e sua fictícia luta contra o terror. Pelo visto, nada mudou mesmo, já que Obama acaba de matar Osama dando continuidade à estratégia eleitoreira do antecessor.
Sob o Domínio do Mal, dirigido por Jonathan Demme, o mesmo de Silêncio dos Inocentes, funciona bem. O roteiro é inteligente e instigante, sempre deixando o espectador envolvido em toda aquela conspiração. A trama acaba sendo fácil de deduzir, mas a resolução é bastante satisfatória. A direção é coerente, sempre utilizando de muitos planos subjetivos para nos deixar dentro da história e construir símbolos claros sobre a personalidade dos personagens e tramas possíveis. A começar pela cena inicial, onde o batalhão joga cartas dentro do carro e somos apresentados a Raymond Shaw, um homem meio aéreo, tímido e desacreditado por seu grupo. Vemos também a bagunça na casa do capitão Ben Marco demonstrando toda a bagunça interna que está a sua vida, suas lembranças, sua falta de perspectiva, que contrasta com a imagem apresentada minutos antes em uma palestra. Outro recurso sempre utilizado é a luz forte quando um detalhe importante na trajetória dos personagens acontece. Há um clarão, simbolizando o que acontece com suas mentes.
Temos ainda a figura forte de Eleanor Shaw que surge para nós em postura, figurino e influência. Quando ela está em cena, prevemos que irá dominar a situação. Não é nenhuma surpresa saber que está envolvida em toda a operação. A cena em que convence o partido a lançar seu filho como candidato a vice-presidente no lutar do mais provável Senador Thomas Jordan é brilhante. Nós, espectadores, não somos convencidos em nenhum momento de que seus argumentos são válidos. Mas, admiramos a forma como ela conduz a todos para conseguir o que quer. Neste ponto, o mérito é, em grande parte da interpretação de Meryl Streep, mas a personagem é mesmo muito bem construída, tanto que rendeu um Oscar a Angela Lansbury na primeira versão. Sua relação com o filho é quase incestuosa e ficamos na dúvida de até que ponto suas atitudes são movidas por sede de poder, doença ou impulsos reprimidos.
Além de Meryl Streep, o elenco está todo bem. Denzel Washington consegue nos convencer de toda a sua agonia como o capitão Ben Marco. Assim como Liev Schreiber defende bem um personagem tão difícil que age como uma marionete. Destaque ainda para a pequena, mas sempre marcante presença de Bruno Ganz. Gosto muito da forma simples como o ator constrói personagens tão complexos e dúbios. Mas, Meryl Streep é mesmo quem mais brilha em cena, mesmo que não esteja presente durante toda a projeção, sua aura está lá, pairando, pela força da personagem e sua interpretação sólida. E pensar que Emma Thompson, Glenn Close e Jessica Lange foram cotadas para o papel. Sem desmerecer nenhuma, o desafio era mesmo de Streep.
Sob o Domínio do Mal pode não ser uma obra-prima cinematográfica, nem mesmo conseguiu superar o seu original, já que o filme de 1962 dirigido por John Frankenheimer ganhou status de clássico. Mas é um filme bem resolvido, envolvente e que nos faz pensar sobre as artimanhas dos bastidores políticos com suas eternas manobras para nos enganar e dominar. Neste ponto, devo concordar que o título brasileiro não é assim tão ruim. É até bastante coerente, apesar de poder gerar uma idéia errada do que temos pela frente.
Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate: 2004 / EUA)
Direção: Jonathan Demme
Roteiro: Daniel Pyne e Dean Georgaris
Com: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schreiber, Jeffrey Wright, Bruno Ganz.
Duração: 130 min
Sexta-feira estreia o quarto Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas. Primeiro da Saga a ser filmado em tecnologia 3D, primeiro também sem a direção de Gore Verbinski e sem o casal William Turner (Orlando Bloom) e Elizabeth Swann (Keira Knightley). Mas, com a sempre aguardada presença do Capitão Jack Sparrow, personagem eternizado por Johnny Depp, papel que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Oscar.
O Deus do Trovão, Thor, continua fazendo sucesso nos cinemas. Inspirado na mitologia nórdica, o filme com direção de Kenneth Branagh que tem no elenco Chris Hemsworth como Thor, Natalie Portman como Jane Foster e Anthony Hopkins como Odin tem tido boa bilheteria e agradado aos fãs. E graças à Sukita, temos três pares de ingressos para sortear aqui. Vejam regras abaixo.
Duas amigas. Uma loira dominadora, extrovertida que gosta de ser centro das atenções. Uma morena, sem graça, tímida, apesar de bonita, fica escondida atrás da outra. Um rapaz, noivo da loira, paixão da morena, por quem é correspondido, apesar dele estar com a loira. Para completar, a distribuição brasileira quer deixar bem reforçado os clichês que invadiram as nossas telas nos últimos anos e apresenta o título: O noivo da minha melhor amiga. O déjà vu é imenso. E o pior é que, a cada cena do novo filme de Luke Greenfield, vamos nos incomodando com o ridículo da situação apresentada.
Sexta-feira 13, para muitos, dia de azar, outros, sorte. Parece que o Blogger sofreu com essa superstição e atrapalhou um pouco as nossas postagens. Mas, tudo se resolve. Independente de qualquer coisa, sexta-feira é dia de cinema. Dando continuidade a nossa coluna semanal, vamos falar um pouco do que nos chamou a atenção por esses dias. Essa semana é marcada pelo início do Festival de Cannes, o mais charmoso e importante para classe cinematográfica, e que vai até o dia 22/05, na próxima edição falaremos mais sobre as novidades ocorridas nele.
O que Os Agentes do Destino, filme que estreia nessa sexta-feira, tem em comum com Blade Runner, o Caçador de Andróides, O Vingador do Futuro, Minority Report - A Nova Lei e O Vidente? Além de serem obras de ficção científica, todos são baseados em histórias de Philip K. Dick. Alguns, clássicos do gênero, outros lamentáveis versões cinematográficas. Os Agentes do Destino fica no meio termo, provavelmente daqui a alguns anos não lembraremos de tê-lo assistido. Tem alguns momentos interessantes. Pelo menos, enquanto idéia. Apesar de se perder em algumas construções, principalmente de roteiro.
A trama gira em torno de David Norris, um jovem político candidato ao senado americano, que no dia da eleição em que sai derrotado conhece a bela Elise. A espontaneidade da moça, faz com que ele construa um discurso de derrota completamente diferente do que estava programado, desnudando as estratégias do marketing político. É tão diferente que faz sucesso. Mas, ao procurar Elise novamente, parece que algo conspira contra a união de ambos. Um encontro por acaso no ônibus reacende as esperanças, mas logo eles são separados. Três anos se passam, mas David não desiste, nem Elise o esqueceu. O que eles ainda não sabem é que o plano já foi escrito e o casal não pode ficar junto. O porquê e quem está por trás de tudo isso é que é a base do sucesso e fracasso do filme. É impressionante como isso acontece na construção do roteiro ao mesmo tempo.
Não há como fugir do seu destino. Por mais que você tente e até o acaso dê sua mãozinha, sempre será ajustado para aquilo que está escrito. Ainda mais com um time de agentes vigiando a humanidade e tratando para que tudo ocorra conforme o planejado pelo "presidente". Essa é a premissa que embasa Os Agentes do Destino que, apesar de burocratizar algo místico, faz sentido em alguns pontos, mas acaba se perdendo em outras justificativas. Nos dá também a sensação de que essa burocracia toda acaba sendo uma bagunça. Sem querer entregar spoilers, quando eles começam a mostrar que o acaso não é tão acaso assim, a coisa desanda. Tanta correria, briga para cumprir o plano e depois ficamos sabendo de informações que nos fazem questionar toda essa lógica e torna a história inteira meio boba. Ao mesmo tempo, há uma discussão saudável e até mesmo profunda do que realmente importa na vida de uma pessoa. E nesse momento, o roteiro nos faz pensar o que escolheríamos se estivéssemos no lugar dos protagonistas. Assim compramos a briga e nos colocamos como eles até o final.
Em relação ao destino e às justificativas da existência dos agentes, gostaria de tocar ainda no ponto que mais me chamou a atenção. Em determinada cena, um agente diz a David Norris, personagem de Matt Damon, que em alguns momentos eles tentaram dar o livre-arbítrio à humanidade e tudo desandou. Ele diz com todas as palavras, por exemplo, que após ajudarem os homens da Idade da Pedra até o Império Romano, foi só deixá-los a sós que caíram em épocas negras da Idade Média. Aí eu pergunto: o Império Romano era bom? Com todos os escravos? Destruição de culturas? Sumiço de religiões? Mais do que isso, durante o período da Idade Média só houve trevas? Que visão ocidental limitada é essa? E todas as contribuições nas artes? E o Império Bizantino? E a China, Índia, Japão? É apelativo e quase absurdo esse tipo de argumento. Os valores são sempre relativos e tudo depende do referencial. Afinal, o que importa? "Não importa o que você sente e sim, o que está escrito", reforça um agente. Somos rebeldes demais para aceitar argumentos tão pouco embasados.
A construção dos agentes é interessante, tanto física quanto psicologicamente. Todos de terno e com chapéus que os fazem parecer um grupo de gangsters, eles estão sempre ao nosso lado, observando, acompanhando, seguindo através de um livro misterioso. Seus poderes são limitados, mas suficientes para deixá-los mais próximos de seus objetivos. Podem, por exemplo, abrir portas que os transportam por lugares diferentes. Qualquer semelhança com Matrix não é mera coincidência. Aliás, no momento chave do filme, tive uma sensação imensa de que veria uma repetição da cena de Neo na sala do arquiteto. Todos estão ligados como uma espécia de organização, com sede própria e um presidente que nunca aparece. Aquela velha máxima de "ele tem vários nomes", deixa o chefe próximo de todos, sem destacar nenhuma religião. Apesar de clichê, acaba sendo interessante. Depois, ficamos sabendo de alguns detalhes que dão mais sentido a tudo isso. Uma dica é prestar muita atenção aos detalhes do personagem de Anthony Mackie.
Apesar de uma certa confusão, e até mesmo apelação do roteiro, a direção tem momentos interessantes, visuais. Como uma cena no início, onde uma imensa sala vazia em plano geral mostra Davis pequeno como ele deveria estar se sentindo após o resultado das eleições. O discurso no banheiro que antecede o primeiro encontro dos dois também é bem construído. O sussuro enquanto vemos a movimentação pelo espaço nos deixa ali, escondidos junto com ela observando a cena. Há também um contra-plongée, que é a câmera completamente virada para cima, mostrando o céu assim que David vê Elise dançando que dá a exata dimensão de vunerabilidade daquele casal aos planos maiores, por mais que a força do amor deles seja evidente. São detalhes que ajudam a construir a história. Mas, o que importa mesmo é perceber que apesar de todos os elementos, o filme não é uma ficção científica, nem mesmo um longametragem de ação. É drama romântico. E como tal, o amor é o foco. É para nos envolver com esse casal que todas as técnicas cinematográficas estão voltadas. E nesse ponto, ele é bem sucedido. Nos flagramos, mesmo sem querer, torcendo por eles. Que os planos, o destino e a idéia de um mundo melhor se explodam, queremos ver aquele amor vencer.
Por isso, apesar de não ser um Blade Runner ou O Vingador do Futuro, Os Agentes do Destino não pode ser considerado um filme ruim a exemplo de O Vidente. Poderia ser melhor resolvido. Ainda assim, nos envolve. No final, a sensação é dúbia. Um sentimento de filme mediano, que não traz nenhuma grande inovação ou mudança, mas funciona como entretenimento. Pelo menos para aqueles que acreditam no amor verdadeiro.
Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau: 2011 /EUA)
Direção: George Nolfi
Roteiro: George Nolfi
Com: Matt Damon, Emily Blunt, John Slattery, Anthony Ruivivar, Terence Stamp, Anthony Mackie.
Duração: 105 min
Quais os limites da ética e das obrigações de uma profissão ou emprego? Afinal, como deve agir um advogado diante de um cliente que sabe ser culpado de um crime? Ou um médico que tem que operar e salvar a vida de um assassino? Como atender bem um ser desprezível diante da sociedade ou, pior que isso, como defender algo que faz mal à humanidade? O filme Obrigado por Fumar, traz esses questionamentos em um tom de sátira crítica e acaba tendo ótimos resultados.
Reflexões de um liquidificador. Não há como negar que o título do filme de André Klotzel já dá um texto. É curioso, interessante, repleto de significados. Um liquidificador que reflete sobre a condição humana e a coisificação dos objetos. Aliás, ele reflete sobre a sua nova condição de ser pensante, com a "tal da consciência" e o quanto isso é difícil. "Não ser gente já é uma forma de ser feliz", ele afirma. E para justificar essa forma surreal de personagem, o roteirista José Antônio de Souza nos apresenta uma história bem interessante.
Esperado aqui no Brasil pela indicação ao Oscar de Nicole Kidman, Reencontrando a Felicidade acabou sendo injustiçado nas principais premiações do ano no quesito que mais chama a atenção: o seu roteiro. Não que a atuação de Kidman esteja ruim, longe disso, está irritantemente boa, já que Becca nos dá nos nervos em vários momentos. Mas, o roteiro de David Lindsay-Abaire, baseado em sua própria peça sucesso na Broadway é extremamente bem construído. Um drama honesto sobre a dor da perda de um filho, sem apelar para clichês ou recursos fáceis do melodrama que tentam fazer a platéia chorar a qualquer custo.
Hayao Miyazaki é mesmo um gênio do anime. Depois de me encantar com a complexidade de A Viagem de Chihiro e a simplicidade de Ponyo, finalmente conferi aquele que muitos consideram sua obra-prima: Princesa Mononoke. Uma fábula sobre a eterna luta entre o homem e a natureza consegue aqui trazer uma poesia extrema, sem bons ou maus, vencedores ou perdedores. Cada um lutando por sua própria sobrevivência.
Tudo começa quando a aldeia de Ashitaka é invadida por um estranho demônio em formato de Javali Gigante. O valente príncipe briga e consegue matar o bicho, mas antes seu braço fica irremediavelmente comprometido. Tem agora uma maldição, que é corroer-se pelo ódio até se tornar um demônio igual ao outro e morrer. A anciã da aldeia de forma sábia aconselha o exílio e busca da cura na floresta proibida. É lá que Ashitaka vai viver a sua jornada. Conhecer os mistérios da natureza, os animais deuses, o espírito da floresta, os homens que querem tomá-la para si e a pequena San, criada como filha pela deusa lobo, ou também conhecida como a Princesa Mononoke, um adjetivo.
A jornada é épica e não segue a trajetória padrão que conhecemos em Hollywood. O roteiro nos envolve em cada etapa da vida de Ashitaka, esperando que ele se cure de alguma forma, mas que, principalmente, compreenda o significado de tudo aquilo. Desde o início, a filosofia oriental está exposta na voz da Anciã que aconselha o rapaz. Há uma fé, uma compreensão do caminho de uma forma que nossa mente ocidental não consegue acompanhar ainda por mais que admire. Há um código de honra em Ashitaka que não o permite matar a natureza, nem se voltar contra sua própria raça. É um herói em conflito, mas que não precisa escolher lados. Ele quer apenas fazer o certo. Seu exílio começa de uma forma interessante, após a defesa de seu povo e continua até que ele conheça a aldeia de ferro e a floresta proibida.
A construção da aldeia é peculiar, principalmente na figura de sua líder Eboshi. Ela chegou àquele lugar com o intuito de dominar a floresta, acompanhada de leprosos e ex-prostitutas e elevou a auto-estima dessas pessoas que passaram a idolatrá-la. Afinal, respeito é algo que se conquista. E isso é que torna o filme de Hayao Miyazaki tão especial. Eboshi não é uma vilã típica, é apenas uma oponente da natureza na Terra. Os animais a odeiam, os homens a adoram. Sua trajetória tem altos e baixos. E o embate com a Princesa Mononoke é bastante peculiar, já que San não se considera humana. Ela está totalmente do lado dos animais que a criaram e revolta-se com a invasão de seu espaço. Em nenhum momento parece haver espaço para um acordo. O equilíbrio entre ambas é mesmo Ashitaka, homem que entende a alma animal e tenta transitar entre os dois mundos.
A animação em si é clássica. Toda em 2D, com poucos movimentos nas paisagens, mas com uma noção exata da linguagem cinematográfica. As paisagens abertas quase sempre tem pouca movimentação, apenas um detalhe ou outro demonstrando vida como uma nuvem que passa ou a água do rio que vibra. Apenas as principais cenas de luta são um pouco mais caprichadas nos movimentos, como a primeira luta de Ashitaka e o demônio ou a batalha final na floresta. Isso não impede a qualidade da obra, repleta de detalhes nos traços. O centro da floresta proibida, por exemplo, é riquíssimo, com uma beleza ímpar. Há sempre o cuidado com a vegetação e os detalhes que compõem o cenário. E criatividade em momentos como a própria imagem do Espírito da Floresta e os bichinhos brancos, os pequenos kodama, que acompanham todo o desenrolar da trama.
Interessante reparar também que os deuses animais defensores da floresta são um javali e uma loba, dois animais extremamente selvagens. E, fora eles e os kodama, os outros únicos moradores do local são um bando de macacos. Com olhos vermelhos brilhantes e pelos negros, eles não se intrometem na briga, mas reclamam da invasão e da morte da floresta. Querem providências, exigem e reclamam de todos. Se pararmos para pensar que pela teoria evolutiva somos descendentes dos macacos, a simbologia desses seres cresce ainda mais. Eles são a interseção, mas, ao contrário de Ashitaka, não buscam a conciliação e sim a discórdia. Para eles, todos são intrusos em sua casa. E a maior culpada é a Princesa Mononoke, pois não pertence àquele lugar de fato e isso pode ter gerado o desequilíbrio em suas visões.
Mas, como já foi dito, na cultura oriental não existem bons e maus simplesmente. Tudo tem várias faces. A obra de Hayao Miyazaki não poderia acabar de outra maneira, sendo uma obra profunda sobre a natureza humana, o meio ambiente e nossa relação no planeta. É mesmo um filme imperdível. Apesar de longo, não cansa em nenhum momento. Suas belas imagens, sua simbologia, sua vida fazem de Princesa Mononoke um primor das animações mundiais já vistas.
Princesa Mononoke (Mononoke-hime: 1997 / Japão)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Com: (vozes) Yôji Matsuda, Yuriko Ishida, Yûko Tanaka, Kaoru Kobayashi, Masahiko Nishimura, Tsunehiko Kamijô, Sumi Shimamoto, Tetsu Watanabe, Mitsuru Satô, Akira Nagoya, Akihiro Miwa, Mitsuko Mori, Hisaya Morishige
Dublagem Americana com: Claire Danes, Billy Crudup, Billy Bob Thornton, Minnie Driver, Jada Pinkett Smith, Gillian Anderson
Duração: 130 min